Em casa, viva as prateleiras!

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

O que seria de Silvio de Abreu,que passou os últimos 30 anos mergulhado entre capítulos de novelas, se fosse desorganizado? O escritório dele, localizado em sua casa, prima pela ordem. Em uma estante, devidamente encadernados e catalogados por data e obra, estão todos os capítulos que criou até hoje. Para o consultor Guizzetti, ?a bagunça física é um sinal de bagunça interna, de pessoa confusa?. Sendo assim, a clareza de raciocínio de Abreu, autor de inesquecíveis folhetins policiais ( como ?A Próxima Vítima?) seria produto da impecável rotina doméstica? ?A desorganização está associada ao hábito de acumular coisas, motivado por vários fatores: medo de faltar algo, apego ou acomodação. Pense em uma metáfora: você em seu carro, na subida, anda bem. Experimente colocar cinco amigas dentro dele. É o que acontece em nossa vida também: trava em um ponto, para que tomemos decisões. Quando há caixas e mais caixas acumuladas, a energia não circula. O primeiro passo é: pare de chamar seu depósito de ?quarto da bagunça?, ou ?triângulo das bermudas?, onde tudo some. Ali é o lugar de coisas pouco usadas, mas não paradas.Prateleiras nelas!?, diz Guizzetti. Papelada de escritório Quando se trata de organizar o ambiente de trabalho, a tarefa pode ficar ainda mais complicada. Afinal, em muitas empresas há ?arquivos mortos? que devem ser guardados - por medida de segurança - por 10 ou 15 anos. Ou seja: o acúmulo de papéis acaba sendo inevitável. Mesmo assim, os especialistas garantem que, com boa vontade e dedicação, é preciso colocar cada coisa no seu devido lugar, poupando tempo e dinheiro à empresa em questão. Em tempos modernos, isso se aplica também ao computador, que deve passar por limpeza periodicamente.?Fiz um trabalho para uma empresa e encontrei muitas caixas com documentos de arquivo morto no chão. Indaguei se aquele volume era necessário e expliquei ao cliente sobre o problema da energia estagnada. Ele me olhou com uma expressão de ?não acredito em você?. Mas afinal, como poderia desejar progresso na vida profissional se existiam tantas coisas paradas e antigas justamente em sua área de sucesso? Até latas de tinta com restinhos havia ali. Quando abrimos as latas, a tinta até já havia secado. Inventamos desculpas para viver no caos. Armários fechados resolvem o problema?, sugere Guizzetti. Faxina amorosa Espaço para o novo chegar. Se é assim com o armário, deve ser da mesma forma com o coração. Segundo Franco Guizzetti, consultor de feng shui para a harmonia do lar, quando a pessoa rompe um relacionamento muito longo deve se livrar de todos os objetos que pertenciam ao ex-parceiro. Foi exatamente isso o que fez a personagem Lívia (Ana Furtado, na foto ao lado), da novela ?Páginas da Vida?. Ao encerrar o casamento com Renato (Caco Ciocler), ela juntou todos os livros dele em caixas e reorganizou o apartamento do casal. ?Quando vou prestar consultoria para alguma pessoa divorciada, é muito comum encontrar no quarto o mesmo colchão que pertencia ao casal. É preciso trocá-lo imediatamente! O mesmo se pode dizer das fotos. Nada de deixar imagens do ex espalhadas pela casa, como se estivesse a esperar por ele. Fazer isso é vetar a aproximação do novo. Imagine que, ao chegar no apartamento de um pretendente, você encontra a foto dele abraçadinho com uma outra mulher. Fica claro que a pessoa não superou aquela relação, não se libertou do passado?, explica o profissional. Saudades sim, mas sem apego Parece história de novela: profundamente tristes com a perda de alguém, parentes decidem conservar intactos os pertences daquele que partiu. Na novela ?Alma Gêmea?, o botânico Rafael (Eduardo Moscovis) simplesmente brecou sua vida quando a mulher foi assassinada. E, mesmo passados vinte anos desde o crime, ainda mantinha o quarto do casal intacto, com todas as roupas dentro do armário e todos os objetos dispostos exatamente da forma como foram deixados. Dramático, o episódio também tem lugar entre gente de verdade, distantes da ficção. ?Há quem monte um verdadeiro museu da pessoa, como se desta forma fosse possível mantê-la viva. Essa atitude não é sinal de respeito, não é benéfica para os vivos e nem para quem partiu. Quem conserva um ambiente inteiro com os objetos da pessoa que morreu invariavelmente vai até lá todos os dias para chorar e lamentar a perda. Conheço um caso em que a mulher havia falecido e o marido manteve a disposição dos móveis por seis anos. Quando resolveu pintar a casa toda, teve uma crise de dor nas costas. A troca de energia foi violenta?, conta Guizzetti.