Elogio da paixão

Rosiska Darcy* - O Estado de S.Paulo

Ela é um pertencimento ancestral, uma memória do nunca vivido à qual alguém se curva como um destino incontornável

Por que a paixão é maldita? Por que é descrita como uma espécie de doença que toma conta de alguém para infernizar seus dias?

 

São muitos os seus inimigos. Associada a um surto psicótico, no mundo da razão só se fala mal dela. Nos consultórios, analistas se esforçam para esterilizá-la. Os bem pensantes dão conselhos sobre como evitá-la. Que pena!

 

É ela que ilumina, em uma vida, os mais fulgurantes momentos.

 

Quem não se lembra desse mundo encantado, fusional, em que todos os sentidos acordam, o perfume na pele, as cores do mundo mais intensas, o gosto da felicidade na ponta da língua, desmentindo quem afirma que essa senhora não existe.

 

O tempo da paixão é a eternidade, seu espaço é uma promessa de infinito e, mesmo se não se cumpre, é certo que marca com seu selo uma existência que, sem ela, não iria além dos horários de entrada e saída do trabalho.

 

Lamento a sorte de quem nunca se apaixonou, se é que sobrevive espécie tão improvável. Aqueles feitos de carne e desejo, os banais seres humanos, se apaixonam. Está no nosso plasma genético. Infelizes os que, fracassando no amor, em vez de congelar a amargura e tomar gosto pelas delícias desse mundo ficcional, insistem em chamar de vida real um cotidiano sem brilho, bem comportado, em que corpo e alma não correm riscos. Em troca desse bom comportamento, ganham uma liberdade condicional, chatinha, ou o direito de habitar sem castigos a prisão por eles mesmos construída.

 

Não sei se haveria arte sem paixão. Arte é a paixão declarada pela vida. A literatura está aí, esse longo depoimento sobre a recorrência no tempo do elã insopitável que se instala sem nenhum aviso e funde dois seres desconhecidos no magma que habitam com naturalidade, ardendo no mesmo fogo.

 

Os apaixonados não se conhecem, se reencontram. A paixão é um pertencimento ancestral, uma memória do nunca vivido à qual alguém se curva como uma predestinação, como um destino incontornável.

 

A paixão é a pior das servidões, me disse alguém, instalado em confortável bom senso, festejando, com lágrimas nos olhos, o sentimento de ter recuperado a razão. Ouvi com respeito, pois sei reconhecer um ferido de morte e não me cabe revolver as cicatrizes alheias. Calei bem guardado o sentimento de liberdade que sempre encontrei na paixão. Ao fim de tudo, era essa desmedida, esse sentimento sem fronteiras, que deixava saudade.

 

A liberdade de sonhar com um mundo inaugural, enfeitado por projetos, voltas ao mundo, desembarcando em todas as praias, e deixando para trás o cotidiano gasto e medíocre.

 

A paixão tem o dom de tornar sem sentido tudo o que não tem o seu brilho, e revelar em negativo a opacidade das vidas. Coloca-se no centro da existência, como um sol da meia noite que não deixa o dia descansar. Tampouco descansam os apaixonados, para quem todas as horas da vida são poucas, todas as vidas são novas, e todos os corpos são virgens.

 

A paixão reconstrói a virgindade, tem uma pureza juvenil. Paradoxalmente, é selvagem. Existe nela uma força animal, um descontrole dos sentidos que passa longe da civilização e de seus bons modos. É um mundo de bichos enfurecidos que rondam uns aos outros, uivando para a lua. Nisso também reside o seu charme, a aceitação de uma invasão de fantasias que não deixam lugar senão para si mesmas.

 

O apaixonado não suporta a banalidade das conversas, quer voltar para suas memórias, para seu mundo, aquilo que para ele é a vida real. Quer o silêncio em que ecoa uma única voz.

 

A intensidade sensual com que a paixão eletriza o corpo tem a sua contrapartida nessa espécie de ascese. Só esse mundo interessa e é nele que se passa a vida real.

 

Por que não acreditar nela? Por que sua incandescência seria menos real que o cinza do dia a dia, dos engarrafamentos, das filas no metrô, das enxurradas? Por que chamar de realidade o que a vida tem de mais insosso e jogar no purgatório as delícias e as urgências da paixão?

 

Por que a paixão acaba? A vida também e nem por isso a razão aconselha o suicídio.

 

*Rosiska Darcy de Oliveira é escritora, email: rosiska.darcy@uol.com.br