Eles conhecem bem a história das epidemias

Fernanda Aranda - O Estado de S.Paulo

Três infectologistas veteranos relembram as reações a grandes surtos e ressaltam valor da informação

O rádio anunciava só "meia dúzia de notícias sobre o assunto". Nada que provocasse alarde. Saber que uma nova gripe fazia vítimas no exterior em 1957 não soava mais perigoso do que as moléstias "made in Brazil". Não havia plano de contingência para proteger brasileiros, leitos de isolamento não eram reservados e morrer de resfriado, naqueles dias, nem era tão absurdo assim. O que separa a epidemia de 52 anos atrás da que agora se aproxima, na versão suína, é mais do que o tempo. No fim das contas, definem Vicente Amato Neto, Isaías Raw e Tuba Kuschnaroff - três profissionais que chegam a 2009 com o currículo recheado por quatro grandes epidemias do vírus influenza - , a principal diferença da gripe suína de agora, que começou no México e já chegou a 13 países, é que, de uma forma ou outra, ela se "espalhou" pela internet. Em 1957, Amato Neto - que ainda não era professor emérito de infectologia - só torcia para que a batizada "gripe asiática" não atingisse seus pacientes da Divisão de Moléstias Infecciosas e Parasitárias, onde ele permanece até hoje, com seus 81 anos de idade. "Pelos livros, eu já tinha tido contato com a devastação da gripe espanhola (que matou 40 milhões em 1918)", lembra. "Mas mesmo com o histórico de devastação anterior, não havia clima de angústia em 1957 nem a intenção de enfrentar a pandemia." Essa gripe matou 1 milhão de pessoas, mas não chegou ao Brasil de forma contundente. Onze anos depois, apesar do silêncio imposto pela ditadura, foi anunciada a chegada de mais uma epidemia de gripe. Dessa vez, em 1968, o epicentro do contágio era Hong Kong. A disseminação para os Estados Unidos foi por meio dos soldados que estiveram na Guerra do Vietnã. A médica Tuba Kuschnaroff foi convocada pelo governo de São Paulo para atender às possíveis vítimas da nova infecção. "Morava na Barra Funda e todo dia tinha de ir para Itaquera, em uma época em que a periferia parecia ainda mais distante", diz. "Não tinha essa história de diagnóstico. Se era suspeito, estava confirmado. Mas grave mesmo, só dois pacientes", conta ela que, aos 78 anos, ainda está na ativa no Hospital Emílio Ribas, polo para atender a novíssima gripe de 2009. Tuba nunca ficou gripada. Credita o sucesso imunológico à vacina. Em 1968, só médicos que tratavam infectados recebiam as doses.