Elas só pensam naquilo

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

O perfil dos assinantes de canais eróticos mudou e, por trás dessa transformação, há uma equipe de mulheres

Nada de marmanjos solitários e tarados. O público dominante dos canais "adultos", aqueles que exibem filmes de sexo explícito, é formado por casais e mulheres. A Playboy do Brasil - marca detentora da programação erótica da TV por assinatura, que inclui Sexy Hot, For Man, Playboy TV, Venus e Private - fez uma pesquisa sobre o perfil dos assinantes e descobriu que a audiência feminina é bem mais alta do que se imaginava.Especialmente no canal Sexy Hot, a cada minuto do dia, elas representam 30% dos espectadores e, no horário nobre, o porcentual sobe para 40%, de acordo com dados do Ibope. Se fossem consideradas aquelas que assistem à TV ao lado do companheiro, o índice seria bem maior. Além das produções eróticas, a mulherada curte o programa Boa de Cama, que vai ao ar quatro vezes por semana. Exibe filmes com enredo e romance - a pedido do público feminino - entre quadros "educativos". Tem terapeuta sexual dando dicas de sedução e de acessórios eróticos, e um casal que mostra posições novas. Comemoram esse interesse feminino pela programação erótica da TV cinco jornalistas, cujas idades variam de 24 a 26 anos, e são as responsáveis por tudo o que vai para o ar e pelo conteúdo do site do canal Sexy Hot. Todas as produções eróticas passam pelas mãos delas, num processo que envolve edição (são cortados closes fortes e grosseiros), seleção do que deve entrar no ar, criação de chamadas, etc. Na sala de trabalho, que fica em um dos departamentos da Globosat, no Rio de Janeiro, todas têm uma televisão ao lado de seu computador, para monitorar a transmissão diária do canal. Isso significa assistir a muita cena de sexo explícito. A coordenadora da equipe, Marcela Leone, conta que a maneira de lidar com esse tipo de produto é bem diferente entre homens e mulheres. "Como temos mais bom gosto, o material exibido fica menos pesadão", observa Marcela. "Queremos passar mais sensualidade e, como conseqüência, tirar aos poucos a idéia da perversão, do mal gosto, do baixo nível, características que estão muito atreladas a esse tipo de produto." A visão "negativa" que paira nesse ramo é motivo para estranhamentos e confusões. Todas já passaram por alguma saia-justa por causa da profissão. Marcela teve de se segurar para não agredir um paquera, que, assim que soube da sua profissão, começou a tratá-la diferente. Os pretendentes costumam se insinuar, sendo mais atrevidos. Por isso, ela vai logo avisando que não é atriz dos filmes, nem participa das filmagens. Apenas cuida da parte operacional do canal. No entanto, outras pessoas acham que Marcela e sua equipe têm o melhor emprego do mundo! Num grupo de amigos, tornam-se as estrelas e são constantemente bombardeadas de perguntas. Todos querem saber sobre o filme do momento, as cenas que foram cortadas, as atrizes que estão em alta, etc. De tanto assistirem a essas produções, elas confessam que acabam descobrindo algo novo. "Tem muita coisa que acho nojento e que jamais faria, por outro lado, dá para aprender algumas posições", brinca Marcela. DIFÍCIL ADAPTAÇÃOO primeiro contato com o mundo do sexo explícito não é tão tranqüilo, principalmente para as mulheres. Depois do choque inicial, vem a fase de adaptação: o conteúdo picante perde toda a carga erótica e as cenas passam a causar indiferença. Mas, até isso acontecer, a novata enfrenta constrangimentos. Carolina Pacheco ficou desconcertada quando, durante a seleção de candidatos, foi entrevistada na sala do diretor da Playboy TV ao lado de uma televisão de 29 polegadas que exibia um filme pornô."Não sabia se olhava, se disfarçava, se fingia que não via", lembra a programadora. "Passei na seleção, mas, nos primeiros dias de trabalho, ficava apavorada com tantas TVs ligadas mostrando pornografia." O susto foi tamanho que ficou três semanas sem conseguir fazer sexo com o marido. A cada tentativa dele, cenas e mais cenas vinham à sua mente e ela travava. Carolina é responsável por escrever as sinopses dos três filmes aos quais assiste diariamente. Tenta encontrar diferenciais nos roteiros (tarefa difícil!). Para vender bem o peixe, um segredo é indicar algumas das práticas sexuais mostradas nos filmes, pois, como explica a programadora, as pessoas querem ver cenas que exibam suas preferências. Antes de assumir o site Sexy Hot, Antônia Canto também escreveu muita sinopse de filme pornô - textos que são publicados na revista com a programação ou no menu da TV. Assim como Carolina, também já fez muita edição, cortando cenas bizarras. Agora cuida do conteúdo da internet e do blog da Bárbara, personagem virtual, bela e sedutora, que volta e meia entra no ar como um desenho animado. Mas o que lhe chama mais atenção são os contos eróticos, escritos e enviados pelos assinantes, que entram no site. Por meio desses contos, Antônia acaba conhecendo os desejos mais íntimos dos brasileiros. Pasmem com a revelação: em boa parte das histórias que recebe, edita e coloca no ar, o fetiche recorrente é transar com a prima, com sogra(o), com cunhada(o). "Além das fantasias sexuais com pessoas da família, todos os homens descritos são bem-dotados e as mulheres, perfeitas", observa Antônia. SOTAQUE PORTENHOEm Buenos Aires, onde fica a base da programação dos outros canais (For Man, Playboy TV, Venus e Private), duas brasileiras também estão envolvidas com a programação erótica. Gisele Lopes e Ciana Lago funcionam como ponte entre a Playboy Latina e a do Brasil, recebendo e enviando material audiovisual, cuidando das legendas, entre outras tarefas. Lá também tem muito mais mulher do que homem: são 12 programadoras e apenas um programador.Como muitos produtos nacionais são exibidos pela Playboy Latina, Gisele e Ciana precisam traduzir para o espanhol algumas palavras em português. "É comum, no nosso dia-a-dia, receber a ligação do editor, que quer saber o que é isso ou aquilo", fala Gisele. "É engraçado trabalhar com esse conteúdo aqui, sobretudo porque, muitas vezes, nos falta o vocabulário ?sexual? do país", conta Ciana, que é casada. "Hoje, por exemplo, o pessoal daqui precisava traduzir o título de um filme e ficamos tentando achar correspondentes para duplos sentidos, como ?pau para toda obra?, com a ajuda de um programador argentino. É sempre muito divertido essa parte dos títulos e das sinopses."Todas acompanharam a profissionalização desse ramo, principalmente das produções brasileiras. Cerca de cinco anos atrás, Antônia cansava de se deparar com filmes "fundo de quintal": a produção se limitava a um sofá surrado, mulheres "acabadas", iluminação precária e imagens com a marca da lente suja. Agora, os filmes brasileiros são cada vez mais procurados no mercado internacional. Atrizes pornôs brasileiras tornaram-se famosas lá fora. Monica Mattos é uma delas. Este ano, ela foi a vencedora do AVN Award, na categoria Female Foreign Performer of the Year, como a melhor performance feminina estrangeira - prêmio equivalente ao Oscar desse segmento. Carolina aponta para outra particularidade nacional. No canal Sexy Hot, os brasileiros não curtem filmes pornôs protagonizados por beldades loiras e longilíneas, como as européias e norte-americanas. Reclamam do excesso de maquiagem e da ausência de bumbum farto. Preferem as brasileiras, mais curvilíneas e mais "reais", ou seja, mulheres do cotidiano. Por outro lado, os filmes eróticos destinados às mulheres precisam ter história - de preferência, com uma pitada de romantismo. Diferentemente da preferência masculina, na opinião delas, os personagens devem ser lindos. Ou seja, devem ser bem diferentes dos barrigudos e carecas da vida real.