Eis a questão

*Rosiska Darcy de Oliveira - O Estado de S.Paulo

É tão fácil conviver com o futuro enquanto vai-se vivendo exatamente o contrário do que se planeja

Há um tempo na vida em que se acredita em projetos. Outro em que se desconfia, sobretudo daqueles sempre adiados. O mais provável é que não se cumpram nunca. É tão fácil conviver com o futuro enquanto, no presente, vai-se vivendo exatamente o contrário do que se planeja. O desejo anunciado, dito e redito, tem então o papel de justamente garantir que ele não se cumpra e, ao mesmo tempo, não morra. Fica ali, como um álibi do que não se faz, promessa de que ainda se fará, uma ausência que se faz presente. O presente se consome, assim, passando de uma vida real a outra, imaginária, você um caleidoscópio de personagens e vivências que se anulam sem integração possível.

Incapaz do luto por um desejo, alimentando destinos que se excluem ou se contradizem, há quem viva exatamente da não resolução de seus conflitos, valendo-se da ambiguidade como a única atmosfera em que consegue respirar, boia de salvação em um mar de indefinições.

Mas tente chamar de ambígua uma pessoa assim! Prepare-se para um rompimento de relações, o personagem em questão não entende porque foi insultado. E não se trata de hipocrisia ou tentativa de se defender ou esconder a sua verdade. A pessoa ambígua não se vê como tal, não tem verdade, justamente graças à sua ambiguidade. Se ela se visse assim, a mágica perderia o seu efeito e as contradições se tornariam insuportáveis.

Há casos de ambiguidade benigna. Sou atriz, quero ser atriz, diz a jovem que nunca fez um curso de teatro e nem sequer assiste a uma peça, de vez em quando. Não é uma mentira, é uma viagem imaginária, será atriz como poderia ser cantora de ópera ou pintora. Acredita que mantém abertas todas as suas chances e opera o milagre psíquico de ser tudo ao mesmo tempo. Enquanto isso vai fazendo desenho de moda e acrescenta ao seu destino de designer uma possibilidade imaginária que nunca se concretizará.

Pior é quando a ambiguidade se encarna em duas vidas de fato vividas, que coexistem em eterno conflito. É o caso clássico dos amores clandestinos que se alimentam muito mais de promessas do que de realidades, até porque a realidade já está ocupada por outra vida que é incompatível com esse amor. Incapaz de renunciar a uma ou outra dessas duas vidas, valer-se da ambiguidade é, supostamente, uma solução. Seria, se não fosse exaustivo.

A ambiguidade é o mais excruciante dos sentimentos, uma lixa que não diz seu nome, mas gasta os nervos de quem nela se instala. É veneno, mas envenena com um gosto bom de onipotência. Romantizada, ganha um ar de ficção e quem a vive acredita estar esgotando o campo do possível, enquanto vai deslizando para o impossível, impondo-se uma equação insolúvel. Um mesmo corpo não ocupa dois lugares ao mesmo tempo e ninguém consegue viver duas vidas sem que cada uma delas seja amputada. Senão, por que seria esse amor clandestino?

A ambiguidade não é uma artimanha, uma mentira ou uma manifestação de mau caráter. É uma maneira de ser, em que você não se compromete com seus atos e menos ainda com suas consequências. Você se desloca de um desejo a outro, de uma existência a outra, num esforço de não perder nada, de ser tudo ao mesmo tempo. É uma não resposta a uma escolha sentida como impossível, onde o querer e o não querer se confundem. Sendo o choque de duas razões, tem uma natureza trágica.

E tem também o seu avesso, cômico, quando permanentemente às voltas com segredos, com o que esconde de si mesma, você, equilibrista, um dia pede desculpas e cai. Cai na real.

Cair na real é uma expressão bem exata, porque descreve uma queda que pode ser vertiginosa. A hora da verdade é quando você reconhece a exata medida das suas limitações, traça as fronteiras das suas possibilidades, tira as lentes de aumento, assume as perdas, quebra o caleidoscópio tão querido. Começa um exercício de maturidade. Escolher é doloroso, é terrível ser uma só. Console-se, essa uma é você. A outra, quem era? Ah, era você também?

Bom, nesse caso talvez você não tenha jeito. Desejo-lhe boa sorte e uma grande dose de energia para desperdiçar.

*Rosiska Darcy de Oliveira é escritora, email: rosiska.darcy@uol.com.br