Educação: como fazer uma boa escolha?

Giuliana Reginatto - O Estado de S.Paulo

Liberal ou conservadora? Laica ou confessional? Ao optar pela escola, a dica é observar questões práticas e também os valores familiares

O Dicionário Universal da Língua Portuguesa define a palavra ideal como ‘perfeição suprema, aquela que só existe na imaginação’. Trata-se, portanto, de um adjetivo que não combina com um substantivo tão concreto como o vocábulo escola. Na prática, quem já deixou as aulas de português há anos sabe que o lugar perfeito para educar os filhos quase sempre coleciona imperfeições: o colégio idealizado pode ser muito caro, distante demais da residência, incompatível com os valores da família ou inadequado ao temperamento da criança.  Veja também:Mudança forçada e mudança escolhidaEnsino religioso, uma questão polêmica "Não existe uma escola boa para todo mundo. Existe, sim, a melhor escola para cada tipo de família. Muitas variáveis influenciam nessa escolha. Tomar uma decisão por causa da fama da escola é um erro. Quando há uma estrutura rígida em casa, escolher um colégio que funciona de modo liberal pode gerar conflitos. Se há um fumódromo na escola, os pais podem ficar incomodados, vão ficar se perguntando: ‘será que meu filho está fumando?’ A escola deve ser adequada às regras da família", explica a psicopedagoga Katia Forli Bautheney, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Estudantes tranqüilas, como Rhaissa Nasser, 13 anos, podem se adaptar com facilidade a normas flexíveis. "Ela estudava em escola de freiras até o quinto ano do ensino fundamental, estava habituada com disciplina rígida. Na nova escola, a Rhaissa tem ‘passe livre’. Pode sair do prédio, por exemplo. Sei que é responsável, então não me preocupo", diz a mãe da garota, Raquel Pavan. Para a assessora pedagógica do Sistema Anglo de Ensino, Tânia Fontolan, ao visitar escolas os pais já devem ter em mente o que esperam delas. "Quem define a linha pedagógica é a escola e ao matricular o filho é preciso estar de acordo com as regras. Se o pai quer uma escola tradicional não pode cobrar flexibilidade. Se fica claro que o colégio não tolera atrasos, não adianta argumentar que o trânsito da cidade é difícil. Procure saber todos os detalhes: como a escola trata o namoro, por exemplo? É muito complicado quando o pai fecha com uma escola tendo outra em mente", opina.  Ao avaliar a ideologia da escola, os pais devem refletir também sobre sua orientação religiosa. Tradicionais no País, as instituições confessionais nem sempre satisfazem a todos. "Trato um caso no qual a mãe escolheu uma escola católica e a família é evangélica. A criança tem oito anos, sente-se excluída, tem uma sensação de perseguição. No fim do ano, vai haver uma apresentação na capela e a menina nem sequer pode entrar lá porque a mãe não permite. Os pais escolheram a escola pela fama", relata Kátia.  Especialista em psicopedagogia clínica e institucional, Milene Massucato diz que a motivação mais freqüente dos pais ao optar por uma escola tem sido o preparo que ela pode oferecer para futuras disputas no mercado de trabalho. "Já no fundamental 2 os pais já querem uma escola bilíngüe, que tenha o que chamam de ‘ensino forte’, com muitas atividades extracurriculares. Eles querem que o filho esteja preparado para o mundo", diz Milene.  Raquel confirma que o futuro profissional das filhas pesou bastante na decisão de trocá-las de colégio. Aos nove anos, Lainah migra para o colégio da primogênita em 2008, quando ingressa no ensino fundamental 2. "Procurava um método que desse suporte para entrar em uma boa faculdade. Gostei da linha das inteligências múltiplas aplicada pelo novo colégio", diz Raquel. A teoria das inteligências múltiplas é um método de vanguarda, criado pelo americano Howard Gardner. De acordo com ele, inteligência não é só a capacidade de entender algo - ela também se manifesta pela criatividade. A teoria é só uma opção dentro da extensa lista de linhas pedagógicas oferecidas no Brasil. Além das instituições que aplicam o método tradicional, algumas se pautam por teorias menos convencionais, como Montessoriana, Waldorf e Construtivista. "Hoje, os pais têm muita informação. Querem conhecer a fundo o projeto pedagógico e preferem não ter de mudar a escola. Querem um lugar onde possam trazer o filho pequeno e deixá-lo até a faculdade", conta Gilciane Ortolani, orientadora educacional do ensino fundamental das Escolas Positivo. A troca de escola pode ser motivada por questões prática s - como dinheiro e preferência pedagógica - ou por incompatibilidade entre a postura da instituição e os valores familiares. Em todos os casos, a transição deve ser feita com cuidado. "Antes de ingressarem, os alunos novos passam por tardes de convivência na escola e participam do lanche. Assim, já chegam sentindo-se parte do grupo", sugere Gilciane. Os especialistas colecionam argumentos para discutir a escolha do ambiente escolar, mas convergem em um ponto: a decisão final compete aos pais. "Eles devem optar por uma escola que possam sustentar subjetivamente e objetivamente. O foco deve ser a formação do sujeito e não só o sucesso no vestibular. É bom considerar a opinião do filho, mas a última palavra é do pai. Não se pode fugir dessa responsabilidade", conclui Kátia.  OBSERVE Questões práticas: para quem mora em uma cidade grande, a distância entre casa e escola é fundamental. Avalie se o preço da mensalidade cabe no orçamento da família Pedagogia: Construtivismo, linha montessoriana, pedagogia Waldorf método tradicional ... Procure saber qual estilo combina com o filho para escolher melhor  Valores familiares: Orientação liberal ou conservadora? Laica ou religiosa? Há escolas que têm fumódromo. Em algumas, se pode sair do prédio no intervalo.  Fatores individuais: Tímidos podem ficar mais à vontade em classes pequenas. O melhor período de estudo, manhã ou tarde, depende de cada organismo