Economia sem frescuras

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

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TROCANDO EM MIÚDOS | Juros na ponta do lápis

Na hora de comprar um bem financiado, as pessoas costumam analisar apenas se a mensalidade cabe ou não no seu orçamento mensal. A decisão é tomada de forma superficial e precipitada, sem avaliar o verdadeiro vilão dos financiamentos: os juros. Saber seu valor exato é o melhor caminho para quem quer fechar um negócio, sem se deixar ludibriar pela falsa ideia das "suaves prestações".

 

Portanto, saiba como calcular a incidência dos juros sobre o valor da compra. O professor e educador financeiro do Centro de Estudos e Formação de Patrimônio Calil & Calil, Mauro Calil, ensina uma continha básica: divida o preço final do bem ou produto, acrescido dos juros, pelo seu preço à vista; subtraia 1 do resultado e multiplique por 100. Por exemplo, se uma geladeira à vista custa R$ 2.000,00 e o seu valor final, a prazo, for de R$ 2.200,00, com o financiamento em 10 vezes de R$ 220,00, faça o seguinte cálculo: 2200 ÷ 2000 = 1,1 - 1 = 0,1 x 100 = 10%.

 

Dessa forma, dá para saber quanto do seu suado dinheiro ficará comprometido para pagar as futuras prestações. "É o primeiro passo também para questionar se não valeria muito mais a pena depositar o valor em uma caderneta de poupança e fazer a compra mais tarde, à vista e com desconto", destaca Calil. "Em vez de pagar juros para o comerciante, a pessoa economizaria os 10% de juros e ainda ganharia 2,2% sobre o valor poupado."

 

Veja a diferença. Ao depositar na poupança R$ 220,00 por mês, em lugar das 10 prestações, ao final de 10 meses, o dinheiro renderia R$ 2.250,17, já descontada a inflação, conforme demonstra o especialista em finanças. "Na poupança, a pessoa deixa de pagar juros para a loja e passa a ganhar os juros do rendimento", avisa Calil. "É preciso acabar com a cultura de que só é possível adquirir algum bem pagando carnê."

 

Com relação a um dos objetos mais cobiçados da atualidade, o carro novinho em folha, também dá para ter a real dimensão dos juros cobrados. Um carro popular, que custa R$ 22.000,00 à vista + R$ 990,00 de entrada, tem sido oferecido por 60 prestações (ou cinco anos!) de R$ 569,00. Ao final das prestações, o total pago seria de R$ 34.140,00, com juros de 55%. Aproveitando a fórmula do cálculo acima: 34.140÷ 22.000=1,55 -1x100=55%.

 

"É importante lembrar que, quando pagar a última prestação, o carro usado estará valendo a metade de seu preço à vista, ou seja, por volta de R$ 11.000,00", ressalta Calil. Mas se essa mesma prestação (R$ 569,00) fosse depositada todo mês na poupança, em cinco anos, o valor seria de R$ 39.699,15, contabilizando-se os 0,5% de juros sobre essa aplicação, descontada a inflação.

 

Ao acrescentar a essa economia a entrada de R$ 990,00, para que também renda juros, ao final do período o poupador teria R$ 41.034,51, ou 78% a mais do que o valor original do carro com a primeira prestação. Ainda, com esse dinheiro em mãos, você poderia barganhar com o vendedor um bom desconto na compra do carro. E, talvez, fosse até possível comprar um modelo mais bacana, em vez do popular. Mais: poderia pagar as despesas de licenciamento, seguro, etc., e continuar com dinheiro rendendo juros na poupança, para trocar de carro cinco anos depois.

 

ENQUETE

A Sophia Mind Pesquisa e Inteligência de Mercado, empresa que pertence ao grupo de comunicação feminina Bolsa de Mulher S.A, da Ideiasnet (www.bolsademulher.com.br), realizou pesquisa pela internet com 1.116 mulheres, para analisar o comportamento financeiro feminino quando o assunto é compras à vista ou a prazo.

 

Um total de 72% das entrevistadas declarou que compra a prazo. E para 90%, a incidência de juros nas compras parceladas é um fator de extrema relevância. Mas só metade (51,9%) sabe como calcular essas taxas.

 

linkCostuma comprar a prazo?

Até 25 anos: 67%

De 26 a 30 anos: 77%

De 31 a 40 anos: 71%

De 41 a 50 anos: 74%

Mais de 50 anos: 78%

 

linkEm que situações utiliza o pagamento a prazo?

Compra de produtos de maior valor: 51%

Não tem situação específica: 27%

Sempre que a loja permite: 23%

Em casos de emergência: 12%

Quando o parcelamento é sem juros: 2%

Quando o parcelamento tem baixa taxa de juros: 0%

* Um total de 70,2% das mulheres respondeu que não costuma comparar a taxa de juros das prestações com o rendimento da caderneta de poupança ou de outros investimentos. Apenas 29,8% das entrevistadas comparam essas taxas.

 

linkEntre as que não fazem a comparação, foram observados os seguintes percentuais por faixas etárias:

Até 17 anos: 83%

De 18 a 25 anos: 76%

De 26 a 30 anos: 75%

De 31 a 40 anos: 73%

De 41 a 50 anos: 56%

De 51 anos ou mais: 54%

 

linkJá pensou em aplicar seus recursos para comprar o bem à vista no futuro?

Sim, já fiz isso: 38,4%

Sim, mas mesmo assim compro a prazo: 36,0%

Não: 25,6%

 

linkNo entanto, quando a mesma pergunta acima foi dirigida àquelas mulheres que comparam a taxa de juros de prestações com a taxa de juros de investimentos, o percentual das que adiam a compra para obter vantagens financeiras foi significativamente maior:

Sim, já fiz isso: 55,5%

Sim, mas mesmo assim compro a prazo: 35,4%

Não: 9,2%

 

linkPossui cartão de crédito:

Sim: 69,3%

Não: 30,7%

 

linkCom que frequência paga a fatura do cartão parcialmente:

Sempre: 2,9%

Frequentemente: 8,8%

Raramente: 29,5%

Nunca: 58,5%

 

linkUsa o limite especial da conta bancária?

Não tenho conta ou limite especial: 13,4%

Nunca usei: 39,0%

Uso raramente: 32,2%

Uso frequentemente: 10,2%

Uso sempre: 5,1%