Donos de casa

Vera Fiori - O Estado de S.Paulo

O Brasil poderá adotar políticas públicas a fim de que homens e mulheres dividam as tarefas domésticas. Mas alguns já ajudam - e muito - em casa

 

 

 

 

 

 

 

 

Os homens nordestinos têm muito o que aprender com os suecos, por exemplo. Enquanto os primeiros, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são os campeões, no Brasil, no menor número de horas semanais gastas em afazeres domésticos - 9,7% versus 22,3% das mulheres -, na terra dos vikings os homens colaboram de forma espontânea em casa e na criação dos filhos.

Por aqui, é preciso um empurrãozinho, como movimentos de mulheres que lutam para reverter o quadro da dupla jornada de trabalho feminina. Quase três décadas depois de sua elaboração, em 1981, o País deve ratificar a Convenção 156, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a fim de estimular a sociedade a repensar o papel de homens e mulheres nas famílias brasileiras. Segundo Eunice Lea, coordenadora da área do Trabalho na Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), governo e trabalhadores já se posicionaram a favor da medida, e o pedido de ratificação foi encaminhado para aprovação do Congresso Nacional.

"Hoje 30% das famílias são providas pelas mulheres. A sobrecarga de funções como trabalhadora, mãe e cuidadora de idosos tem um preço alto, inclusive, com o surgimento de doenças. Ainda, a responsabilidade exclusiva pelos afazeres domésticos restringe tanto a sua entrada quanto o seu crescimento na atividade econômica, e dificulta o acesso a posições de liderança nas esferas privada e pública. Como decorrência, não por acaso, uma parcela de 44,2% atua na informalidade, em função dos horários mais flexíveis", destaca a coordenadora Eunice Lea.

Com a aprovação da medida, que visa a diminuir as desigualdades, o Estado deverá cumprir a sua parte com a implementação de políticas públicas, como licença maternidade compartilhada e acesso das crianças a creches e escolas em tempo integral. E setores da sociedade, como empresas, terão de se readequar, revendo jornadas de trabalho de homens e mulheres, para que possam compartilhar obrigações.

Meio a meio. No entanto, alguns homens nem precisam de um empurrãozinho da legislação. Por livre e espontânea vontade, dividem as tarefas de casa com suas companheiras, confirmando uma tendência da empresa de pesquisas Ipsos. Segundo o estudo, homens e mulheres transitam naturalmente entre várias possibilidades. Elas podem deixar o mercado de trabalho para cuidar do marido e filhos, enquanto eles demonstram hoje ser mais sensíveis, próximos das crianças e parceiros no âmbito doméstico.

A forma de divisão das tarefas varia de acordo com a dinâmica adotada pelo casal. Por razões profissionais, alguns homens passam mais tempo em casa e, assim, assumem cozinha, limpeza, cuidados com as crianças. Outros, mesmo trabalhando, têm uma rotina de tarefas. Nota-se que a tendência é mais forte entre os casais que cultivam hábitos de consumo e de vida alternativos ou que exercem atividades ligadas ao meio ambiente, artes, música, educação.

Sergio Villafranca, 43 anos, pianista, e sua mulher Fabíola, educadora e artista plástica, 35 anos, são pais de um bebê de 3 meses e encaixam-se no universo dos que compartilham os afazeres domésticos. Segundo Sergio, apesar de Fabíola vir de uma geração de mulheres independentes, após a maternidade, optou por ficar em casa acompanhando de perto o crescimento da criança. "Como tenho horários flexíveis, ajudo bastante em casa, ainda mais nessa fase em que o bebê requer muita atenção da mãe. Faço o almoço, lavo a roupa e a louça. Temos a ajuda de uma faxineira uma vez por semana, mas o dia a dia fica comigo. Não vejo a participação masculina no serviço doméstico como esforço, mas como uma forma de ser um pai e companheiro mais presente."

Conta que aprendeu a executar as tarefas na prática, já que foi "mal educado" pela família, assim como amigos na sua faixa de idade. "Nunca precisei fritar um ovo ou arrumar a cama. Já entre os amigos de Fabíola, na casa dos 30, noto que os homens são menos dependentes das mulheres nas questões domésticas."

 

Também os altos e baixos no mercado de trabalho promovem mudanças na dinâmica familiar, ocorrendo a inversão de papéis, ou seja, ela vai e ele fica.Todos os dias, às 5 horas da manhã, a mulher de Antonio Carlos Barbieri, de 48 anos, que trabalha na área financeira, sai para o trabalho e retorna às 5 da tarde. A partir daí, a casa e os cuidados com as filhas Vitória, de 16 anos, e Maria Eduarda, de 3, ficam sob a responsabilidade de Antonio Carlos. Há um ano e cinco meses, ele vem tentando ser recolocado no setor automotivo. "Não tenho nenhum problema, até porque, desde os 18 anos, quando passei a morar sozinho, tive de aprender a me virar. E olha que naquele tempo não tinha tantas facilidades, como micro-ondas, freezer, alimentos prontos."

 

Sua jornada doméstica começa por volta das 6, quando prepara o café das meninas e as encaminha para a escola. E termina por volta das 22h30. "Vou à feira, supermercado, padaria, açougue. Temos uma faxineira que faz a limpeza mais pesada uma vez por semana. Diariamente, dou uma varrida na casa, cuido do gato e das plantas. Por volta das 10h30, começo a preparar o almoço", diz ele, que, no dia da entrevista, estava preparando um pimentão recheado no maior capricho.

 

Na opinião de Antonio Carlos, a forma de dividir as tarefas domésticas é consequência da educação que se tem em casa. "É importante incentivar filhos e filhas a colaborarem desde pequenos", opina. Em relação aos preconceitos, afirma que os papéis caricatos do machão e da Amélia estão em extinção. "Quando reunimos os amigos, uma turma bem grande de 30 pessoas, cada um fica na sua. Ninguém pergunta nem comenta a vida do outro. Os modelos adotados pelas famílias apenas a elas importam."

 

Site masculino. Bom humor e criatividade foi a saída encontrada por quatro amigos que perderam o emprego. O carioca Alex, geógrafo de 34 anos, conta que, na ocasião, todos estavam desempregados, ao contrário das respectivas esposas e namoradas. "Achamos graça da situação e resolvemos assumir a condição de donos de casa, criando camisetas com frases e desenhos temáticos. As pessoas vinham perguntar onde poderiam comprar os modelos e, assim, resolvemos criar o site Donos de Casa, como canal de vendas." Hoje, o site também reúne informações e serviços relacionados ao tema.

 

Alex ficou dois anos fora do mercado de trabalho, retomando o emprego meses antes de sua filha nascer. "Na época em que estava desempregado, deixava tudo pronto pela manhã, saía à tarde e, à noite, cozinhava para nós dois. Hoje cada um de nós assume as tarefas de acordo com as compatibilidades e paciência. Eu me dou melhor na cozinha e também nos consertos gerais, e ela cuida mais da limpeza e das roupas. Não levo jeito para passar roupa, tarefinha complicada e ultrapassada. No dia em que as Fashion Weeks da vida alardearem que as roupas amassadas são a última moda em Paris, estaremos a um grande passo da evolução doméstica", brinca.

 

Apesar de levar a inversão de papéis com bom humor, na época em que ficou sem emprego, Alex sentiu algum tipo de preconceito e ironias. "Sofri algum preconceito de maneira mascarada, além de ter ouvido piadas sobre a masculinidade. Muita gente ainda acha que cuidar da casa é coisa de mulher e que, se um homem faz isso, é porque a mulher o domina ou porque ele é gay."

 

No entanto, acha que os tempos estão mudando. Na sua roda de amigos - uma galera muito boa de cabeça, moderna e antenada -, cerca de 40% colaboram com as tarefas em casa. "A forma de educar os filhos é importante. Vejo com preocupação o excesso de zelo das famílias, que protegem suas crias de tudo e de todos, vivendo em círculos sociais esterilizados e homogêneos, reforçando o individualismo."