Dois padrões de vida distintos

- O Estado de S.Paulo

O cotidiano de Iraci, no Rio, e de Conceição, em Salvador

São 9 horas na manhã ensolarada de Copacabana, na zona sul do Rio, e Iraci Soares, de 73 anos, segue apressada pelas ruas movimentadas deixando para trás dezenas de jovens pelo caminho. Três vezes por semana ela corre contra o tempo na saída da aula de hidroginástica para não chegar atrasada à sessão de alongamento que faz em outra academia. É da atividade física que ela tira o vigor para as rápidas passadas e a agitada agenda cultural: shows e teatro todo fim de semana, viagens pelo Brasil e pelo exterior e muita conversa para trocar com as amigas, que só na turma de alongamento são 25 na mesma faixa etária. Iraci ficou viúva em 1975 e desde então recebe como pensão o salário integral do marido economista. ?QUANDO DÁ? A balconista de Salvador (BA) Conceição dos Santos Rego, de 37 anos, desempregada há três, é mãe solteira um menino de 14 anos, cursando o 5º ano do ensino fundamental, na rede estadual; outro de 10 anos e uma menina de 8, ambos no 2º ano, na rede municipal. Ela se escora no Bolsa-Família e no vale-gás para seguir a vida. "Faço bicos como faxineira e lavadeira, mas meu principal ganho vem do governo, mesmo." O benefício foi elevado, no mês passado, para R$ 112 - antes, era de R$ 75. O principal item de consumo de Conceição, segundo a própria, é o "quando dá". "No café da manhã, por exemplo, as crianças comem pão, com café e leite... Biscoito, só quando dá", ironiza. "No almoço é igual: tem sempre arroz e feijão, mas carne é quando dá. Com remédios e roupas é a mesma coisa, mas quase nunca dá." Os filhos ficam doentes com "certa freqüência", segundo a mãe.