Doença de adulto

Vera Fiori - O Estado de S.Paulo

A hipertensão vem afetando crianças e pode ser corrigida com mudança de hábitos alimentares

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Salvo escoriações e fraturas típicas de crianças levadas, as doenças de infância sempre foram dor de garganta, sarampo, catapora, caxumba e rubéola. Hoje a obesidade e os problemas decorrentes, como hipertensão, diabetes e colesterol, mais comuns em pessoas de idade adulta, afetam crianças do mundo todo. A estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) é de que mais de 42 milhões de crianças com menos de 5 anos estejam acima do peso ou sofram de obesidade no mundo.

 

O mais alarmante é a hipertensão, doença silenciosa, que não apresenta sintomas. Mais de 95% de toda a pressão arterial alta é do tipo hipertensão essencial, causada por fatores genéticos e ambientais, como a ingestão de sal em excesso. Já a hipertensão arterial secundária é assim denominada porque a elevação da pressão é causada por outro problema, como doença nos rins, entre outras patologias. "Quanto menor a criança, mais grave é a hipertensão, e aí investiga-se a causa. Já na fase pré-adolescente, a hipertensão é associada à obesidade na ordem de 35%", explica a nefropediatra do Hospital Sabará, Maria Cristina Andrade.

 

A médica lembra que, se antes as crianças tinham peso normal ou eram anêmicas, hoje, como resultado das comodidades da vida moderna, têm sobrepeso ou são obesas (46% da população brasileira, segundo pesquisa do Ministério da Saúde). "Para a pressão voltar a níveis normais sem medicamentos, a criança ou adolescente deve perder peso e praticar uma hora e meia de exercícios aeróbicos todos os dias." Família, sociedade e escola, alerta, são corresponsáveis no processo de reeducar a geração de gordinhos.

 

Segundo Frida Plavnik, nefrologista e conselheira da Sociedade Brasileira de Hipertensão, não se sabe ao certo o porcentual de crianças hipertensas no Brasil, mas fala-se que gira em torno de 1% a 3%. O primeiro contato da criança com o sal, diz ela, se dá com a papinha. Os hábitos serão herdados do paladar da mãe, e é aí que mora o perigo, já que o brasileiro consome duas vez mais sal do que o recomendado pela OMS, que é 6 gramas por dia ou uma colher de chá.

 

Somadas ao sedentarismo, as guloseimas são as vilãs da saúde das crianças. Por isso, os pais devem ficar atentos aos rótulos das embalagens, alerta a nefrologista. O sódio, um dos componentes do sal de cozinha, não está apenas nos alimentos salgados, mas também nas bolachas doces recheadas, em conservantes (nitrito de sódio e nitrato de sódio), adoçantes (ciclamato de sódio e sacarina sódica), fermentos (bicarbonato de sódio) e realçadores de sabor (glutamato monossódico).

 

"O mineral representa um papel importante em diversas funções do organismo, principalmente no equilíbrio entre os fluidos celulares e extracelulares. Atua também na transmissão de impulsos nervosos em todo o corpo, permitindo assim o funcionamento do cérebro e o controle de nossas funções vitais. O problema é o excesso", explica Frida.

 

Para detectar alguma alteração e fazer um diagnóstico precoce, o controle da pressão arterial deve ser feito a partir dos 3 anos, nas visitas ao pediatra. "Os níveis de pressão arterial variam de acordo com o sexo, idade e altura, existindo tabelas que permitem ao médico verificar se a pressão arterial se encontra em níveis adequados."

 

Responsabilidade dos pais. Quando o pai ou a mãe é hipertenso, a chance de o filho ser é de 25%. E se ambos têm a doença, a probabilidade é de 60% . Portanto, se o problema existe na família, os pais devem pensar duas vezes antes de encherem o carrinho do supermercado com alimentos ricos em sódio, elemento diretamente relacionado com a pressão arterial elevada e outros problemas, como derrame cerebral, catarata, problemas renais e até mesmo casos de câncer no estômago.

 

Coordenada pelo cardiologista Daniel Magnoni, uma pesquisa do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia com 1.294 hipertensos mostrou que 93% não sabem fazer a distinção entre o sal e o sódio descrito nas embalagens, 75% nem sequer leem os rótulos e 45% não sabem que os produtos industrializados podem conter sal.

 

O brasileiro tem o costume de ingerir 14 gramas de sódio por dia, alerta o médico, lembrando que o mineral está presente em embutidos, alimentos industrializados, conservas envasadas em latas e vidros, molhos, sopas e caldos prontos, e refrigerantes. Para calcular o teor da substância, deve-se multiplicar o valor de sódio no rótulo por 2,5 - o resultado indica o correspondente em gramas de sal. Um alimento com 500 mg de sódio, por exemplo, representa 1,25 g de sal.

 

Outra pesquisa feita entre 2003 e 2009, por médicos do Hospital Pro Criança Cardíaca, no Rio, com 2 mil pacientes na faixa de 5 a 20 anos, mostra que 53,2% dos jovens e crianças têm excesso de gorduras no sangue; 63% se alimentam de forma errada; 2% são hipertensos; 47,4%, sedentários, e 7,5% estão acima do peso. Sobre o estudo, a cardiologista e fundadora do hospital, Rosa Célia, observa que não há diferença de hábitos alimentares entre as classes sociais, uma vez que o acesso aos salgadinhos, fast food, iogurtes, hambúrgueres, refrigerante, doces é muito fácil. O resultado é que os pequenos apresentam níveis altos de colesterol e alteração da pressão arterial como jamais se viu antes.

 

"Se fizessem uma pesquisa para saber o que as crianças levam para a escola, os biscoitos seriam os campeões. Por que não levar uma fruta?" Para a médica, os maus hábitos alimentares estão relacionados às idas ao supermercado, número de horas em frente à TV e às mães que trabalham fora, deixando as crianças com babás ou empregadas, que soltam as rédeas.

 

Segundo a médica, a família pode colaborar, aderindo aos hábitos saudáveis. "Caso contrário, como a criança vai comer cenoura com uma geladeira cheia de iogurte? Ela briga, reage, mas quer ser cuidada."