Docilidade dos animais é ameaça à espécie

Liège Albuquerque - O Estado de S.Paulo

Toda a docilidade e a confiança dos botos nos seres humanos são também a sua sentença de morte. "Eles são presas fáceis para os pescadores, que estão tornando a espécie em animais em extinção. Eles matam os botos para fazer isca para a piracatinga, cuja produção é toda exportada para a Colômbia, pois é um peixe necrófago e não se come na Amazônia", explica o veterinário Anselmo Da?Fonseca. Entusiasta do projeto da bototerapia, ele afirma que a valorização do animal no tratamento das crianças poderá coibir também essa caça discriminada.É também o que pensa a bióloga Vera da Silva. "Além de um belo trabalho terapêutico voluntário, também é um projeto ecológico, mostrando às pessoas que o boto é um animal dócil", defende.Ela lembra que terapia similar é realizada nos Estados Unidos com golfinhos, só que em cativeiro. "Esses nossos animais são mais autênticos, livres e por isso mesmo é notório o quanto são amigos do homem". Um boto cor-de-rosa adulto pode chegar a 180 quilos e 2,5 metros.De acordo com a médica Socorro Sampaio, é importante frisar que a terapia com os botos não promete curas, mas certamente fornece estímulos para uma melhora no estado geral do paciente. "O contato com esses animais dóceis, amigáveis e inteligentes ajuda a melhorar o aspecto psicológico dessas crianças, não tenho dúvidas", diz. Para o fisioterapeuta Igor Simões, o trabalho vai indiretamente ajudar a desfazer a imagem do boto como animal nocivo, que engravidava donzelas virgens, presente nas antigas lendas amazônicas.