Do mundo para o Bomra

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

Estava tudo lá: o cinza, as leggings, as peças soltinhas, o ombro de fora, as botinhas curtas. Só que, ao invés dos pesos pesados da moda nacional e internacional - os pais das tendências de inverno -, a passarela trazia marcas quase anônimas, nascidas num bairro bem distante das vitrines de ouro da Oscar Freire. Era a 4ª edição do Bom Retiro Fashion Business mostrando a moda da estação gelada para quem sua com o aluguel, o condomínio, as contas, o guarda-roupa... O evento foi realizado entre segunda-feira e ontem, em plena Rua Ribeiro de Lima, coração do Bomra, atraindo público de 120 mil pessoas (os desfiles eram abertos). Trinta marcas apresentaram parte de suas mais recentes coleções, todas ´contaminadas´ com as novidades que saíram da última São Paulo Fashion Week, de Nova York, de Paris, de Milão. "Nós ajudamos o consumidor final a digerir o excesso de informação que vem dos desfiles internacionais", explica Reginaldo Fonseca, coordenador-geral do evento. "Mostramos as tendências de forma simplificada, despertando o desejo dos clientes." Provocação que dá certo. De acordo com Fonseca, no ano passado - o primeiro do Bomra Fashion -, as vendas na região cresceram cerca de 20% durante e após as apresentações. "Atingimos o consumidor diretamente. As coleções que aparecem na passarela já estão à venda, por isso, muitos clientes vêem os desfiles e vão correndo para as lojas." Assim como nas grifes mais caras do País, na 101%, Alvin, Aramodu, Aslan Trends, Biro/ Week Bag´s, Bomb Girl, Burda, Cashier, Cia das Calcinhas, Couple Star, Disparate, Gazzy, Guelt, Idio´s Surf, Kittens, Lou Lú Fashion, Malagueta, Marcconello, Milvest, Negra Flor, Pitanga, Q Bella Lingerie, Rommanel, Spot Shoes, Sweet Girl, Tribo Carioca e Universo das Calcinhas, o inverno será sóbrio nas cores e leve nos tecidos. O xadrez é a coqueluche das estampas e a legging, a das calças. Esta última acompanha minivestidos - com capuz ou balonês -, batas e trend coats. Nos pés, botas de canos longos ou curtos predominam, assim como as sapatilhas, que ganham a companhia de polainas. Atenção para a alfaiataria e as mangas morcego. Mesmo com o frio, o hit é deixar um ombro de fora. Entre os acessórios, as maxibolsas e os cintos extra-largos sobrevivem. Gritinhos e assobios Na terça-feira, em meio ao público que assistia ao vaivém dos modelos do lado de fora do Bomra Fashion, tendências não eram exatamente o centro das conversas. A mulherada só queria saber dos garotões que eventualmente apareciam na passarela - todos constantemente ovacionados com gritinhos e assobios, mesmo quando surgiam na platéia apenas para ver os colegas desfilando. O constrangimento, no palco ou fora dele, era visível. Às meninas restava o nariz torto. A vendedora Jucilene Machado, de 36 anos, espectadora involuntária do evento - ela trabalha na Ribeiro de Lima -, fez pouco caso das garotas. "São magras demais. Por isso, as roupas nem ficam tão bem nelas. Nas minhas clientes ficam muito melhores", desdenhou. Já o DJ Antônio Oliveira, de 39, saiu em defesa das modelos. "Todas são lindíssimas, foram muito bem escolhidas." DJ Toni, como se diz conhecido, aprovou as beldades, mas reprovou o trânsito. "O desfile foi bom, mas atrapalhou todo o tráfego. Isso aqui está uma loucura."