Do consultório a Marsilac

- O Estado de S.Paulo

Médico deixa clínica particular para atender moradores em bairro carente

Dois riachos, um cruzamento de linha férrea e 15 quilômetros em estrada de terra separam um médico de Gilsélia Batista Tristão. O trajeto leva cerca de meia hora, mas quando chove nem carro passa. Mesmo assim, todas as semanas, uma das seis agentes comunitárias da Unidade Básica de Saúde (UBS) de Engenheiro Marsilac, no extremo sul de São Paulo, passa pelos lados da casa de Gilsélia. Mesmo que o motivo da visita não seja profissional, uma delas sempre vai saber o que se passa com Gilsélia, lembrá-la do exame de sangue que precisa ser feito novamente, do Papanicolau que anda evitando ou do resultado de uma mamografia. Mais, vai preparar caminho para quando o "doutor Francisco" chegar. E ele vai. Toda terça-feira, o clínico-geral Francisco Silhou José, médico da equipe do Programa Saúde da Família, percorre as casas de pelo menos 15 das cerca 500 famílias do bairro. Lá se vão três anos desde a primeira vez que pisou em Marsilac. Chegou para ficar uma semana no lugar de um colega - ninguém queria saber de trabalhar ali - e ficou. Largou o consultório particular, o trabalho no hospital do Grajaú e um salário maior e foi de vez para uma região em que as pessoas convivem com problemas como diabete e hipertensão - e com outras doenças bem menos comuns. Hoje, cinco pacientes com malária são acompanhados na UBS local. Até pouco tempo atrás eram seis doentes. Um deles era uma agente de saúde, moradora do bairro. De sua casa até ali, o médico percorre cerca de 50 quilômetros por dia, mas está satisfeito com o que conseguiu. "Poderia ser mais bem remunerado em outra área, mas para mim o balanço é positivo", diz o médico. Homem de gestos simples e fala baixa, José parece se sentir à vontade entre as pessoas de Marsilac. Não faz muita cerimônia para entrar na casa dos moradores da região ou para fazer perguntas sobre como anda a vida quando encontra um deles no meio de uma das poucas ruas do lugar. Na última semana, quando entrou na casa de Gilsélia, levou com ele a experiência de quem acompanha de perto seus pacientes e sabe como eles vivem. Luciana Barros de Souza, de 36 anos, agente comunitária residente em Marsilac, estava com ele para fazer observações. "Não foi por falta de avisar, doutor", diz ela. Ou então emenda: "Parece que agora está dando certo com esse remédio." A cada pergunta do médico para Gilsélia, a agente intervém com uma consideração profissional ou, simplesmente, de vizinha da paciente. "Antes ela tinha muito problema com o ex-marido, cuidava mais dele do que dela mesmo", confidencia Luciana. Enquanto isso, o médico retira do envelope uma radiografia. Levanta em direção à luz que entra pela janela e dá o diagnóstico - está tudo bem com Gilsélia, mas ela precisa parar de adiar seus outros exames. "Eu sei doutor. Mas é que nesta semana não dá mesmo. Olha só, na outra terça eu vou, sem falta", promete a mulher. A negociação é uma das principais estratégias dos médicos e profissionais do Programa Saúde da Família. Foi dessa forma que os agentes comunitários conseguiram, no ano passado, fazer mais de 9 milhões de visitas domiciliares. Os resultados desse esforço são positivos e chegaram a 38% da população de São Paulo no último ano. Nesta semana, José vai esperar Gilsélia aparecer. Ela que não demore, pois é bem capaz de a agente de saúde ir buscá-la em casa. Para ela não custa nada.