Diversidade e igualdade entre humanos

Fernando Reinach* - O Estado de S.Paulo

Muitas pessoas costumam afirmar que todos os seres humanos são iguais. Basta olhar para duas pessoas para constatar que a afirmação é falsa. Por outro lado, é fácil entender como a discriminação racial e extermínio de minorias levaram um grande número de pessoas a preferir a idéia de que somos todos iguais a lidar com o fato de que cada um de nós é único. Outras pessoas aceitam que as diferenças existem, mas sustentam que elas são tão pequenas que "é como se fôssemos todos iguais".O fato de uma mulher ser capaz de amamentar seu filho - enquanto o homem nem sequer engravida - não pode ser considerado uma diferença pequena. Tampouco é pequena a vantagem que as pessoas de raça negra possuem sobre os brancos no que se refere à suscetibilidade ao câncer de pele induzido pela exposição ao sol. Mesmo assim, do ponto de vista biológico, é possível argumentar que apesar de existirem diferenças é praticamente impossível classificar uma pessoa como melhor ou pior que outra. Imagine duas pessoas que apresentem centenas de diferenças entre si, mas que cada uma tem características que oferecem vantagens e desvantagens em um dado ambiente. No final, a diferença entre elas fica pequena e tão dependente do meio ambiente em que vivem que se torna impossível julgar se alguém é superior ou inferior.O exemplo clássico de como uma característica pode ser vantajosa ou desvantajosa dependendo do ambiente é o caso da mutação que provoca a anemia falciforme. A doença, presente entre as populações africanas, é desvantajosa à primeira vista e foi inicialmente caracterizada como doença genética. Mais tarde se descobriu que essa mesma mutação aumentava a resistência das pessoas à malária. Na África, a mutação dá vantagem aos seus portadores. Em lugares sem malária, é uma desvantagem. Afinal, quem é superior? Quem tem ou não a mutação? Depende.Resultados semelhantes foram obtidos para a dislexia. Pessoas com dislexia têm dificuldade para ler e escrever. Elas trocam letras e muitas vezes também têm dificuldade em se expressar oralmente. Recentemente, um estudo da Universidade de Londres descobriu que uma fração desproporcionalmente alta de empreendedores bem-sucedidos apresenta dislexia. Na Inglaterra, esse número chega a 35% dos empreendedores, uma porcentagem três vezes maior que a freqüência de disléxicos na população. Quando os pesquisadores analisaram o motivo desse desvio, descobriram que pessoas disléxicas têm uma maior capacidade de liderança, pois delegam com facilidade, se concentram na elaboração de estratégias e na coordenação do trabalho da equipe. Isso demonstra que a dislexia, classificada e tratada como doença em grande parte das escolas, pode se tornar uma vantagem para quem vive em ambientes que valorizam o empreendedorismo.Os exemplos mostram quão difícil é classificar como superior ou inferior uma característica que varia entre membros da espécie humana. Se imaginarmos que há centenas de características como essas, fica claro que, apesar de cada um de nós ser único, é impossível afirmar que um indivíduo é superior ou inferior a outro.* Biólogo - fernando@reinach.com