Disciplinado vive mais, diz estudo

Karina Toledo - O Estado de S.Paulo

Equipe da Universidade da Califórnia vincula traços como persistência e organização à longevidade

Pessoas organizadas, disciplinadas e persistentes tendem a viver mais. Pelo menos é o que indica uma pesquisa da Universidade da Califórnia (EUA) publicada recentemente na revista da Associação Americana de Psicologia. Segundo os autores, pessoas conscienciosas - que apresentam esses traços de personalidade - estão menos propensas a morrer, em qualquer idade, na comparação com as mais impulsivas. A explicação, afirma o psicólogo Howard Friedman, um dos autores da pesquisa, parece estar ligada tanto a um comportamento mais saudável - beber e fumar menos e assumir menos riscos - como a fatores sociais - carreiras e relacionamentos pessoais estáveis. "Também parece haver alguma influência biológica subjacente que faz com que alguns indivíduos tenham uma tendência a ser mais conscienciosos e mais saudáveis", afirma Friedman. Os pesquisadores analisaram os dados de 20 estudos - realizados em 6 países com 8.942 participantes -, que investigam a relação entre determinados aspectos da personalidade e longevidade. Algumas facetas da chamada conscienciosidade foram levadas em conta: responsabilidade - que envolve fatores como grau de responsabilidade social, autocontrole e impulsividade -, ordem - que abrange organização, eficiência e disciplina - e realização - envolvendo motivação, persistência e diligência. As relações mais significativas foram observadas entre longevidade e duas dessas facetas: ordem e realização. A relação com responsabilidade foi bem menos relevante. "Mas não se deve esquecer que nenhuma outra variável psicológica, social ou biológica foi controlada", alerta a psicóloga Maria Cecilia de Vilhena, especialista em técnicas do exame psicológico. Embora considere os resultados limitados, Maria Cecilia ressalta que os autores chamam a atenção para um ponto importante: a necessidade de considerar aspectos da personalidade no atendimento à saúde e em estudos epidemiológicos. "Isso pode ajudar a identificar estratégias de tratamento mais adequadas para um determinado paciente e indicar medidas de apoio complementares que sejam necessárias, principalmente nos tratamentos de longo prazo", avalia. EXTREMOS Sobre a suposta desvantagem dos indivíduos impulsivos, Maria Cecilia afirma que o conceito de impulsividade adotado na pesquisa está relacionado à ideia de correr riscos e exercer pouco controle sobre a expressão das emoções. "Nesse sentido, os impulsivos estão mesmo em desvantagem. O alto grau de mortalidade entre adolescentes e jovens adultos do sexo masculino é uma evidência disso, embora fatores associados ao gênero e sociais sejam os principais responsáveis", explica a psicóloga. Mas, assim como a impulsividade, o excesso de organização e disciplina também pode ser prejudicial, alerta ela. "Os extremos são sempre desvantajosos para a adaptação", continua. "Os muito impulsivos podem apresentar comportamento errático, sem foco, pouco produtivo. Já os muito regrados podem ter comportamentos rígidos, que comprometem sua capacidade de adaptação a novas situações." QUALIDADE DE VIDA Para o geriatra Luiz Leme, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), de fato pessoas com um estilo de vida mais estruturado têm maior chance de atingir idades mais avançadas. "Esta é uma das causas apontadas para que a longevidade seja maior em mulheres atualmente, quando há 80 anos era menor. Elas são mais organizadas, têm menos stress e frequentam com mais regularidade serviços de prevenção de saúde", diz. Embora considere a longevidade a construção de toda uma vida com bons hábitos, Leme ressalta que a importância de fatores genéticos e ambientais não pode ser subestimada. "Mais que aumentar a quantidade de vida, os bons hábitos talvez sejam mais importantes para aumentar a qualidade da vida longeva."