Deus e os ônibus na Europa

Gilles Lapouge* - O Estado de S.Paulo

A cidade de Barcelona, na Espanha, nos envia notícias de Deus. E não são notícias boas: um enorme cartaz vem sendo exposto, há alguns dias, na lateral dos ônibus, com a seguinte informação: "Provavelmente Deus não existe." Em seguida, um conselho: "Pare de se preocupar e aproveite a vida." A primeira ideia é que essa campanha em favor do ateísmo surgiu apenas em Barcelona, a grande cidade catalã que é um dos centros do anarquismo espanhol e a capital dos livres pensadores. Mas soubemos que os ônibus de Madri, Sevilha, Bilbao, cidades ardorosamente católicas, também estão prontos a nos comunicar suas provas da "não-existência de Deus". Aliás, não é só a Espanha que começa a fazer essa enorme publicidade em torno da ausência de Deus. Ela foi lançada alguns dias antes em Londres, onde um coletivo de ateus entendeu que o bicentenário, neste ano, do nascimento de Charles Darwin era uma boa ocasião para lembrar que as provas da existência de Deus são frágeis. A França, que adora esse tipo de debate, por enquanto está muda. No entanto, o país tem uma longa tradição de ateísmo. Ainda na década de 50, os militantes ateus franceses, empoeirados e barbudos, escolhiam a Semana Santa para ir ao açougue e encomendar, com voz ensurdecedora, duas bistecas bem sangrentas. Mas esses ônibus me deixaram em dúvida. Num certo sentido, estou contente. Há décadas leio compêndios de Filosofia e Teologia. Comparo as demonstrações de Santo Ambrósio com as de Nietzsche, na esperança de decidir se Deus existe ou não. Tudo isso em vão, porque sou muito influenciável e o "último que fala me parece sempre estar com a razão". No caso dos ônibus de Barcelona, a vantagem é que a demonstração é tão rápida, tão fulminante, que nem temos tempo de contestá-la. Enfim temos uma certeza: Deus não existe. O que é de lamentar é que os ateus de Barcelona não vão até o fim na sua afirmação. São ateus escrupulosos. O "provavelmente" da frase é uma calamidade. Ele reintroduz a dúvida num assunto sobre o qual precisamos de certezas. Quando eu me dispunha a mergulhar no ateísmo, começo a hesitar. Estou indeciso em "duvidar" da existência de Deus. Esses ônibus espanhóis, longe de simplificar as coisas, as tornaram mais obscuras. E eu volto a folhear as páginas de meu Santo Ambrósio e de meu Nietzsche e retorno à busca de "provas". Mais uma vez, comparo os méritos contrapostos do ateísmo e da fé. Talvez ter fé seja exatamente isso: nos perguntarmos incessantemente se temos fé, esperando que, no dia da nossa morte, possamos fazer essa pergunta diretamente para Deus, mais confiável apesar de todos os ônibus anarquistas de Barcelona, e exigir dele uma resposta clara. * Gilles Lapouge é correspondente em Paris