Detonada pela má remuneração de médicos, crise do NE pode se espalhar

- O Estado de S.Paulo

Brasília - A crise na saúde enfrentada nos Estados do Nordeste pode se alastrar por outras partes do País, avalia o presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), José Luiz Gomes do Amaral. Apesar da liberação de recursos do governo federal, a ameaça de novas interrupções no serviço somente terminará quando sair uma solução para um impasse há anos enfrentado pelo Sistema Único de Saúde (SUS): a contratação de pessoal. Como é descentralizada, cabe a municípios e Estados a contratação de médicos (a União só contrata quando se trata de instituições federais). O presidente do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), Elvécio Miranda, afirma que o problema se acentua em cidades mais distantes. "Quanto menor o número de habitantes, maior a dificuldade de recrutar profissionais." Profissionais resistem a mudar para onde não terão contato com colegas, o que dificulta a atualização. Miranda acredita haver também um problema de mercado. "Temos 26 mil equipes de Saúde da Família e 450 vagas para residência na área, mas só metade é preenchida", diz. Em outros países, observa, o governo tem uma atuação maior na oferta de vagas para residência, o que ajuda a corrigir distorções. Quanto maior a dificuldade para recrutar, maior o salário. No Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais pobres do País, o salário do médico pode chegar a R$ 10 mil, diz Miranda. "Gostaria que eles mostrassem o contracheque", rebate o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Edson Oliveira. Ele garante que a maior parte ganha salários baixos. Amaral, da AMB, reconhece que muitos profissionais hoje trabalham em cooperativas. "Fomos empurrados para esse tipo de organização", diz. Sem aumento nas tabelas de procedimentos, recebem pouco, não têm estabilidade nem benefícios. O movimento no Nordeste, dizem os médicos, não pode ser classificado como greve. "Eles se demitiram. Ninguém é obrigado a trabalhar de graça", diz Amaral. O presidente do CFM, por sua vez, afirma que o problema é fruto da inoperância dos gestores. "Há tempos haviam sido alertados de que os médicos deixariam de trabalhar."