Designer do carnaval

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

Joana Lira, criadora das ilustrações que fazem parte do carnaval recifense, registra o seu trabalho em livro

Quem já se deixou "frever" - expressão popular para "ferver" - freneticamente no carnaval de Recife lembra dos desenhos gigantes que decoram o centro histórico e encantam os foliões, com suas cores contrastantes e traços contemporâneos. Mas muitos não sabem que, por trás dessas imagens, está uma ilustradora pernambucana, que trabalha no seu ateliê em São Paulo. Trata-se de Joana Lira, que mora há dez anos na capital paulista e elabora os elementos que compõem o cenário de uma das festas de rua mais tradicionais do País. Desde 2001, realiza esse trabalho, que envolve uma equipe de profissionais complexa. Todo o processo de criação está registrado no belo livro Outros Carnavais (Editora DBA, R$ 65,00), lançado recentemente. "A ideia é mostrar como aconteceu o amadurecimento e a consolidação desse trabalho, que foi pouco falado, apesar do esforço descomunal de todos envolvidos e de ser algo que reflete diretamente na dinâmica da cidade", explica a desenhista, de 32 anos. "Para mim, que sou extremamente perfeccionista, a preocupação em desenvolver uma linguagem visual coerente a uma festa daquela proporção causou enorme esgotamento emocional, a ponto de precisar parar um ano para me recompor."A designer ajudou a promover uma verdadeira revolução no carnaval recifense: a descentralização da folia, para evitar aglomerações e oferecer vários pólos de festa no centro da cidade, os quais permanecem ainda hoje. Cada lugar tem uma identidade própria, mas são conectados graças à linguagem visual, composta pelos desenhos . Para cuidar dessa reorganização da festa popular, Joana juntou-se a uma equipe de profissionais, capitaneada pelo seu próprio pai, o arquiteto pernambucano Carlos Augusto Lira. Desde então, entre erros e acertos, ajudou a definir a cara do carnaval de Recife. Foi a partir daí, também, que surgiu um ícone da festa: os personagens com rostos enormes, que decoram as ruas.PASSADO DE FOLIÃO envolvimento de Joana com os bastidores da folia acarretou duas mudanças radicais em sua vida: deixou de dançar o seu tão amado frevo nas ruas, mas, em contrapartida, desfrutou de uma evolução artística. "Desde cedo aprendi a ser levada pela multidão no rabo de uma orquestra de frevo", conta a designer-foliã. "Para se ter uma ideia, usava duas fantasias novas por dia. Mas quando comecei a trabalhar nos bastidores da festa, perdi toda a poesia ingênua do passado."Workaholic assumida, mergulhou de cabeça em um projeto de amplitude ímpar (literalmente) em sua vida profissional. Seus desenhos se transformavam em bonecos e figuras de até 20 metros de altura. Ficava emocionada quando os via espalhados pela cidade. Porém, quando saía para curtir o carnaval, depois da exaustão dos preparativos, encarnava o papel de supervisora, em vez de assumir o de foliã. Só conseguia enxergar as falhas do projeto e da reprodução de seus traços, por menor que fossem. Assim seguiram-se os anos e os carnavais, e Joana definiu não só o seu estilo artístico, como também a sua profissão. Trocou suas pinturas em porcelana por ilustração. Hoje, até continua enfeitando com capricho vasos e objetos de cerâmica, que são vendidos em seu ateliê, na Vila Madalena. Mas, agora, encara esse trabalho apenas como "recreio".Muito tempo afastada da folia, este ano vai pular adoidado pelas ruas de Recife, retomando as velhas raízes. Desta vez, vai curtir com o filho e o marido, celebrando o lançamento livro, que não deixa de ser uma homenagem à festa multicultural, regada a maracatu, afoxé, caboclinho, o famoso frevo ... E decorada, claro, com os seus desenhos que já estampam até camisetas.