Desconexão de hábitat ameaça anfíbios

Herton Escobar - O Estado de S.Paulo

Desmatamento, fragmentação florestal e destruição das matas ciliares põem em risco reprodução dos animais

É verão, o tempo está úmido, os rios estão cheios. Para centenas de espécies de anfíbios da mata atlântica, chegou a hora de acasalar. Milhares de sapos, rãs e pererecas saem de seus esconderijos na floresta à procura de um riacho ou de um brejo para namorar e se reproduzir. Só tem um problema: hoje em dia, chegar até a água virou uma missão quase impossível, que exige a travessia de descampados, pastos e plantações inóspitas. Muitos animais morrem no caminho, ressecados, pisoteados, intoxicados por pesticidas ou vítimas de predadores.Essa historinha, aparentemente infantil, representa atualmente a maior ameaça à conservação de anfíbios da mata atlântica, de acordo com um estudo publicado hoje na revista Science. Segundo os cientistas (todos brasileiros, o que é coisa rara na prestigiosa revista americana), o distanciamento das áreas de floresta (onde vivem os animais) e dos corpos d?água (onde eles se reproduzem) impõe um risco imediato à sobrevivência de várias espécies. "Para um bicho que vive dentro de uma floresta úmida, atravessar uma grande área descoberta e quente é uma corrida de obstáculos mortal", diz o ecólogo Paulo Inácio Prado, da Universidade de São Paulo (USP). Algo como uma mulher grávida que precisa atravessar um campo minado para chegar e sair da maternidade.O problema, batizado de "desconexão de hábitat", nasce de uma combinação histórica de desmatamentos, fragmentação florestal e destruição das matas ciliares (de beira de rio). Cerca de 93% da mata atlântica já foi ocupada pelo homem. As poucas florestas que restam estão isoladas em morros ou foram picotadas em fragmentos desconectados, enquanto os vales (onde correm os rios) são dominados por cidades, pastos e plantações.É um problema sério para a maioria dos anfíbios. Cerca de 80% das mais de 480 espécies da mata atlântica começam sua vida na água, na forma de girinos. Apenas 20% se reproduzem em ambientes terrestres, dentro da própria floresta. A maioria dos anfíbios também tem ciclos de vida curtos - muitos não vivem mais do que um ou dois anos, segundo o especialista Célio Haddad, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro. "Se a espécie não consegue se reproduzir, sua população pode ser extinta rapidamente", diz.Os cientistas só atentaram para o problema no início deste ano, quando o ecólogo Carlos Guilherme Becker, da Unicamp, fazia trabalhos de campo para sua tese de mestrado em São Luís do Paraitinga, no Vale do Paraíba. Ele percebeu que os remanescentes de mata estavam no topo dos morros, afastados dos rios, e colocou armadilhas (baldes enterrados) no meio do caminho para saber se os anfíbios desciam da floresta para se reproduzir. Foi o que aconteceu. Os cientistas, então, resolveram investigar se isso ocorria em outras áreas da mata atlântica. Cruzaram dados geográficos sobre diversidade de espécies com mapas de remanescentes florestais e perceberam que, quanto mais distante a mata estiver de um corpo d?água, menor é a diversidade de anfíbios dentro dela. Só as espécies com ciclo de vida terrestre não são afetadas.No curto prazo, dizem os cientistas, a desconexão de hábitat é uma ameaça maior à biodiversidade de anfíbios do que o próprio desmatamento ou a fragmentação florestal. Eles pedem a recomposição urgente das matas ciliares e a construção de "corredores" florestais, para que os animais possam chegar aos rios com segurança.Outros co-autores são Carlos Fonseca, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, e Rômulo Batista, da Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Amazonas.