Descoberto sítio arqueológico na Serra do Mar

Reginaldo Pupo, SÃO SEBASTIÃO - O Estado de S.Paulo

Localizado em São Sebastião, complexo de senzalas e estradas dos séculos 18 e 19 pode ser o maior do País

Cerca de 200 metros acima do nível do mar, em São Sebastião, litoral norte de São Paulo, pesquisadores localizaram uma área que, somada ao sítio existente, pode vir a ser um dos maiores achados arqueológicos em extensão do País, com 1,2 quilômetro quadrado. No local, foi identificado um complexo de senzalas e estradas originais que davam acesso a essas construções. O material encontrado data do final do século 18 e início do século 19. "A nova área descoberta impressiona pelo tamanho e pelas técnicas de construção", avalia o arqueólogo Wagner Bornal, do Departamento de Patrimônio Histórico da Prefeitura de São Sebastião e doutorando do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP). "Estamos criando um banco de dados, onde teremos informações obtidas por meio de geoprocessamento e imagens de satélite", explica o arqueólogo, que conta com o auxílio de técnicos de campo, da Universidade Paulista (Unip), Unimodulo de Caraguatatuba e do Núcleo São Sebastião do Parque Estadual da Serra do Mar. A descoberta foi feita há seis meses, mas divulgada apenas na última semana. Situada no bairro São Francisco, a área é uma extensão continuada do Sítio Arqueológico de São Sebastião, descoberto em 1991. Nos últimos seis meses, pesquisadores fizeram um minucioso mapeamento e identificação das construções e objetos do local, que faz fronteira com o Parque Estadual da Serra do Mar. Em toda a área, há vestígios de cursos d?água, pontes, resquícios de cerâmica, telhas, fornos e muitos alicerces de construções, que impressionam pela técnica usada. As pedras eram apenas encaixadas entre si, sem necessidade de nenhum material como argamassa para fixá-las umas às outras. O trecho mede aproximadamente 5,5 mil metros quadrados, mas, somado à área total do sítio arqueológico, chega a 1,2 quilômetro quadrado, segundo Bornal. "Essa metragem refere-se apenas ao que já foi encontrado, mas já temos evidências, por imagem de satélite, de que a nova parte é mais extensa." O mapeamento começou depois que "cicatrizes" cortando a Serra do Mar apareceram em imagens de satélites. As marcas denunciavam cursos de rios e construções desconhecidas. Técnicos levaram quase dois anos para localizar as estradas, escondidas sob mata fechada e terreno íngreme. Foram feitos estudos com altímetros, bússolas e trenas. O trabalho teve autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), do Ministério da Cultura. O trecho começa na beira da Rodovia Rio-Santos até atingir 200 metros de altitude. Na subida, foram identificadas estradas que se cruzam perpendicularmente. Elas eram utilizadas para o escoamento da produção de cerâmicas produzidas por escravos. O Estado acompanhou os pesquisadores na quinta-feira nas estradas originais até um local a partir de onde se tem uma visão do Canal de São Sebastião, usado como ponto de vigilância. Ali se fazia o controle de chegada e saída de navios. A água era abastecida por canaletas. No caminho, ruínas denunciam a existência de unidades habitacionais para escravos. As paredes eram de pedras e havia fragmentos de potes de cerâmica e fornos. Os pesquisadores identificaram também muitas pontes construídas com rochas. O material está intacto e será catalogado, identificado e enviado ao laboratório da Secretaria de Cultura e Turismo da cidade, que já tem mais de 100 mil peças do sítio arqueológico descoberto em 1991.