Descoberto o menor réptil voador

Alexandre Rodrigues - O Estado de S.Paulo

Equipe da UFRJ estuda o pequeno pterossauro de 25 centímetros de envergadura, identificado na China

Pesquisadores do Museu Nacional, ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apresentaram ontem a menor espécie de pterossauro já encontrada no planeta. Batizado de Nemicolopterus crypticus (algo como morador alado escondido da floresta), o réptil voador tinha só 25 centímetros de envergadura, contrastando com outros animais desse tipo cujos ossos já encontrados indicam medidas de até 10 metros de uma asa à outra. O Nemicolopterus foi identificado com base em um fóssil completo encontrado na China. A descoberta sugere uma nova teoria sobre a evolução dos pterossauros, parentes dos dinossauros que foram extintos há 65 milhões de anos.A caracterização científica do fóssil, feita por pesquisadores brasileiros e chineses, foi descrita em um artigo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), editada pela Academia de Ciências dos Estados Unidos, uma das publicações científicas mais respeitadas do mundo."Esse fóssil escreve uma nova página na história evolutiva desses animais", afirmou o paleontólogo Alexander Kellner, do Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Nacional. Ele explica que a descoberta dá elementos para a teoria de que os grandes répteis alados que habitaram a Terra e se alimentavam de peixes foram resultado da evolução de pequenos animais como o Nemicolopterus, que vivia em copas de árvores e provavelmente se alimentava de insetos."Agora sabemos que existiram pterossauros de pequeno porte, que viviam nas copas das árvores. Os exemplares gigantes, que atingiam de 5 a 10 metros de abertura das asas, eram descendentes de animais como o Nemicolopterus", afirmou Kellner, acrescentando que a descoberta indica que pterossauros também habitavam o interior dos continentes, e não apenas a costa. "Não se trata de um elo perdido, algo que une duas coisas. Ele é totalmente diferente. Não se imaginava que existia esse tipo de animal preservado no registro fóssil."O fóssil que deu origem à descoberta foi encontrado por pesquisadores chineses em 2004, na localidade de Luzhougou, na província chinesa de Liaoning. A região é hoje uma das mais procuradas por paleontólogos de todo o mundo por causa da intensa atividade vulcânica que propiciou a formação de muitos fósseis na juventude da Terra. O esqueleto do Nemicolopterus foi encontrado numa rocha do período Cretáceo, de 120 milhões de anos.REGISTRO RAROFósseis de répteis alados são ainda mais raros que os de dinossauros.O Brasil é um dos países em que foram encontrados mais vestígios de pterossauros. A maior espécie já identificada no Brasil foi batizada de Anhanguera piscator, 20 vezes maior do que o Nemicolopterus: com cerca de 5 metros de envergadura.Por causa da experiência acumulada pelos paleontólogos brasileiros, Kellner e o pesquisador Diógenes de Almeida Campos, do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), foram convidados pelos chineses para a análise científica do fóssil. Com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio (Faperj) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), eles foram a campo na China e se dedicaram ao trabalho por quatro anos.O fato de o fóssil apresentar ossos bem formados fez com que os pesquisadores descartassem a hipótese de se tratar de um filhote de uma espécie maior. Segundo Kellner, um dos fatores decisivos para a caracterização de uma nova espécie foi a identificação de falanges, que não haviam sido encontradas em dedos de outros pterossauros, apenas em dois bem primitivos. Essas articulações serviriam para facilitar a aderência a galhos de árvores. A ausência de uma crista também indica, segundo Kellner, que o pterossauro tinha como hábito se esconder em árvores.Por acreditar que as árvores eram o hábitat desse animal, o Nemicolopterus foi reproduzido em vida pelos paleoescultores do Museu Nacional num galho de árvore. A reconstituição e um modelo de seu esqueleto passarão a integrar a exposição permanente da instituição, juntamente com uma réplica do fóssil, que ficou na China.