Dedicação de avó

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

Dulce Auriemo desenvolve um projeto de literatura musical para crianças, que une livro, CDs e shows

Dulce Auriemo bem que poderia levar a vida na flauta. Casada com o dono da rede de Laboratórios e Diagnósticos da América, que em São Paulo compreende o Delboni Auriemo, teria condições de continuar se dedicando exclusivamente à família, aos seus estudos musicais e à sua agenda cultural que tanto preza. No entanto, passou a desenvolver um trabalho musical infantil sem fins lucrativos, que já beneficiou milhares de crianças de escolas públicas e particulares e de instituições beneficentes.

A iniciativa chama-se Projeto Espantaxim, e inclui livros com canções e partituras, acompanhados de CDs, além de shows, com bonecos imensos. "Meu objetivo principal é oferecer uma contribuição de valor cultural à literatura musical infantil do Brasil", faz questão de frisar, explicando o nascimento desse projeto educacional, que, há sete anos, deu um novo impulso à sua vida.

Como em um conto de fada, as canções e personagens que compõem a sua obra surgiram depois que se tornou avó. Quando soube que a sua segunda filha estava grávida, ficou tão feliz que sonhou com um ursinho azul. Teve a certeza, então, de que seu primeiro neto seria um menino. Dito e feito! Era o Bruno, que está prestes a completar 10 anos.

Para eternizar o momento de grande felicidade, compôs a cantiga de ninar do ursinho azul. "Tanto letra como melodia foram fluindo, até a versão final", lembra Dulce, aos 59 aos, mãe de quatro filhos. Depois vieram outros netos e outras canções. A cantiga A Princesinha foi criada para sua segunda neta, Bianca, que já está com 8 anos.

Com o aumento da criançada na família, o jeito foi fazer uma música que servisse para receber todos os novatos, incluindo o terceiro, Marco. Então surgiu a Castelinho, que descreve a casa da vovó Dulce, ou melhor, da vovó Dudu, como é conhecida. "Um lugar muito especial, que representa o coração de todas as avós, onde tudo pode", diz.

As canções, assim como os personagens, foram surgindo a partir de acontecimentos do cotidiano. Quando Dulce percebeu, já tinha um punhado de músicas. Lembrou-se então das que havia feito para seus filhos, quando eram pequenos. Desse passado, resgatou mais sete. "Em uma das muitas viagens de negócios do meu marido, em que o acompanhei, estava andando no calçadão do Leblon, no Rio de Janeiro, quando percebi que deveria fazer alguma coisa com esse material", conta.

Apesar de formada em Comunicação pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), Dulce preenchia seu tempo cuidando dos filhos e estudando música, sua grande paixão desde menina. Recorda-se de como se deliciava ao ouvir uma tia concertista dedilhar o majestoso piano de calda da família.

PARCERIAS

Já crescida, casada e devidamente iniciada no mundo da música, desenvolveu sua técnica com o saudoso violonista Paulinho Nogueira, durante 15 anos de aula e amizade, encerradas com seu falecimento, em 2003. Com ele, possui oito composições, entre as quais, Coração Violão. Em 1986, Dulce lançou seu primeiro disco, Como um Sonho, com relançamento em CD, em 2002.

Suas músicas foram escolhidas para compor o primeiro volume do Piano Solo - Compositores Brasileiros, em parceria com Amilton Godoy, consagrado pianista do Zimbo Trio e seu professor dos velhos tempos. Ele assina com Dulce os arranjos instrumentais de todas as canções infantis criadas e interpretadas pela musicista. Seu primeiro livro é Espantaxim e o Castelinho Mágico, com 14 canções, ilustrações, CD e partituras musicais.

"Fui questionada por ter colocado partituras no livro, mas, mesmo que a criança não saiba música, os símbolos podem despertar curiosidade e interesse", explica a autora. "Ao mesmo tempo, serve de base para educadores e possibilita a interpretação das canções por outros músicos." De 2002 para cá, Dulce elaborou outras edições, com mais personagens e canções. Entre os seis títulos lançados, escreveu um apenas com trovas, acompanhado de CD, no qual ensina os pequenos os segredos dessa rima.

O mais novo trabalho é Meu Primeiro Álbum de Piano Solo, com edição bilíngue (português e inglês). Está em andamento seu primeiro romance infantil, a partir de uma história que envolve todos os personagens das canções. Em vez de ir atrás de uma editora, Dulce resolveu seguir os conselhos de Tatiana Belinky, premiada escritora e poetisa da literatura infanto-juvenil, que assina o prefácio do seu primeiro livro. "Ela disse que era para eu encaminhar o meu projeto como uma criança que costuma ser levada pela mão." Seguindo essa dica, a musicista abriu sua própria empresa, a D.A. Produções Artísticas, que une editora, selo fonográfico e produção de shows.

Os shows, aliás, começaram timidamente, mas sempre com Dulce cantando suas músicas infantis e se apresentando com os bonecos. Agora, há cenário, técnicos de som e manipuladores, que se vestem com o figurino dos personagens. Por tratar-se de um projeto sem fins lucrativos, Dulce costuma fazer os shows sem cobrar nada, em instituições e escolas públicas.

O Projeto Espantaxim já foi contratado pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) e por Centros de Educação Unificados (CEUs) de São Paulo, recebendo ora um cachê simbólico, ora uma quantia que cobria os custos. "Como a intenção não é ganhar dinheiro, mas sim nos manter para divulgar ao máximo esse trabalho, negociamos sempre. Há escolas que venderam nossos livros aos pais em troca da apresentação."

Como dinheiro não é o fator primordial desse trabalho, todos os valores que entram vão direto para o que Dulce chama de Fundo Espantaxim, uma espécie de caderneta de poupança que serve para viabilizar mais apresentações. Na D.A. Produções trabalham apenas uma pedagoga e uma produtora, além da própria Dulce. As únicas funcionárias fixas visitam escolas e instituições, distribuindo o material gratuitamente para que educadores possam conhecer a proposta. O próximo passo é expandir a equipe.

"Em vez de comprar um apartamento, gasto com o projeto cultural. Vale muito a pena, por ser a minha contribuição social." Além de estimular o aprendizado da música entre os pequenos, Dulce quer lhes passar valores positivos, como ética, paz, amor, por meio de seus personagens.

Para embasar seu trabalho, foi atrás de orientação pedagógica e estudou o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, do Ministério da Educação e Cultura. "Queria desenvolver algo que fosse útil", diz, com a doçura que lhe é peculiar.