Decididas, e ponto final

Fabiana Caso - O Estado de S.Paulo

Na maioria das vezes, são as mulheres que tomam a iniciativa de separar-se ou divorciar-se do parceiro

Antigamente, as divorciadas eram apontadas na rua como um alvo constante de preconceito. Esse fator social somado à falta de autonomia financeira tornava a maioria das mulheres presa a casamentos eternos, ainda que insatisfatórios. Hoje, porém, elas assumem a maior parte dos pedidos de divórcios e separações, nos quais não há concordância entre as partes, como demonstra o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2005. De 102.503 separações judiciais, 17.315 foram requeridas por mulheres, enquanto apenas 6.378 foram pedidas por homens. O restante dos casos é de separações consensuais. O fato é que os homens, ainda que insatisfeitos, não costumam ir atrás da separação. A menos que já tenham outro relacionamento engatilhado. Os psicólogos atrelam essa falta de iniciativa ao fator cultural de o homem precisar ser cuidado: a esposa seria uma seqüência da mãe. "Eles dependem totalmente da mulher", declara o psiquiatra, sexólogo e terapeuta Joaquim Motta. Autor do livro Amores Humanos, Traições Divinas (All Books), ele também é membro do Grupo de Estudos do Amor, no qual diversos profissionais da saúde e cidadãos comuns debatem o tema. Segundo Motta, quem constrói o vínculo amoroso no casamento é a mulher, e é ela quem o desmonta. "Quando o homem está insatisfeito, ele arruma amantes. Mas não se separa. Ele só faz isso quando tem outra mulher com quem quer se casar", diz. "Já a mulher vai desmontando o vínculo e decide se separar, e isso não depende de ter outro homem." É muito raro, acrescenta, encontrar um homem que tenha tomado a decisão de se separar e esteja morando sozinho. "Eles precisam de outra mulher para se sentirem seguros." Motta acha que a mulher tem mais força para tolerar a solidão. "Ela avalia todos os fatores antes de tomar a decisão: econômicos, sociais, os filhos. E raramente se separa para ficar com outro homem", reforça a terapeuta de casais Ana Maria Fonseca Zampieri, autora do livro Erotismo, Sexualidade, Casamento e Infidelidade (Editora Ágora). A terapeuta acredita que eles têm medo de construir uma nova vida íntima, além de detestarem a solidão. "Só que a mulher vai até o fundo do poço para tomar a decisão da separação, pensa em tudo. O homem geralmente não chega nem a um terço, não avalia os problemas da relação profundamente." Os filhos costumavam ser motivo para se levar em banho maria casamentos insatisfatórios, fala a terapeuta. "Hoje as mulheres estão mais conscientes de que acabar um casamento não significa acabar com a família, muito pelo contrário. Estão muito mais bem-resolvidas do que os homens nessa questão." DE MALA E CUIA Tamanho o poder de decisão das mulheres que, se for preciso, enfiam o marido indesejável dentro de um ônibus e o mandam de volta para a casa da sua família. A vendedora baiana Maria (nome fictício), de 42 anos, ficou casada por 19 anos. Veio morar na capital paulista com o ex-marido e, felizes, viveram juntos por algum tempo. Tiveram duas filhas, mas a relação familiar começou a degringolar quando ele passou a beber além da conta. Chegou a um ponto em que era escoltado para casa por policiais e perdia trabalhos. "Isso desgastou muito a relação", lembra Maria. Ela reuniu a família e expôs o problema, deixando claro que se separaria se ele não largasse a bebida. Deu ultimatos e chegou a internar o marido em uma clínica de recuperação. Mas ele fugiu e voltou para casa. Isso foi a gota d?água para ela, que já sustentava a família sozinha havia quatro anos. O que Maria fez? Ligou para o irmão do ex-marido na Bahia e disse que a única solução era mandá-lo de volta para a casa de sua família. Isso já faz alguns anos e, hoje, apesar das dificuldades financeiras, Maria diz que está num dos momentos mais felizes de sua vida. "Chego em casa e tenho paz. Amo minhas filhas, nos entendemos bem e dou a educação que acho certa para elas." Maria não recebe um tostão de pensão, e até prefere não depender em nada do ex. Até conheceu outras pessoas nesse meio tempo, mas não se desespera por ficar sozinha. Agora, está batalhando para o marido assinar os papéis do divórcio, depois da separação a fórceps. BEM PLANEJADO A empresária Mônica Cristina Piva, de 39 anos, também ponderou muito antes de tomar a decisão de se separar. Mas, uma vez de cabeça feita, não voltou atrás. Ela foi casada por 13 anos e tem um filho também de 13. Lembra que, por causa dele, engoliu muito sapo, mas um belo dia percebeu que o filho estava tendo problemas como reflexo dos desentendimentos dos pais. "Percebi que seria muito melhor para ele se nos separássemos", lembra a empresária, que levou a cabo a decisão, há cinco anos. - Antes de tomar a iniciativa, ela passou anos elaborando a escolha. "Sabia que o primeiro ano seria turbulento", lembra ela, que previu problemas com a família dele - o que, de fato, ocorreu. Mônica fez até terapia para se fortalecer emocionalmente: elaborou suas culpas no relacionamento para não sair como vítima. Finalmente, pediu a separação. Preferiu começar do zero: saiu da casa e optou por não pedir pensão. No momento, o relacionamento entre os pais é tranqüilo e o filho tem uma boa convivência com ambos. Mônica nunca teve como prioridade encontrar outro companheiro. Durante os cinco anos em que está separada, conheceu algumas pessoas, mas começou um namoro sério somente há quatro meses. "Eu que tinha prometido para mim mesma que nunca mais me casaria, agora me pego querendo isso", fala, alegre. A designer de interiores Rosângela Moreira da Silva, de 44 anos, esteve casada por 13 anos e se divorciou há quatro meses. "Se aparecer alguém que esteja dentro dos meus parâmetros, tudo bem, senão prefiro ficar só." Ela tem um filho, de 10 anos, e mantém um bom diálogo com o ex-marido, com quem convive de perto. "Nenhum filho quer que os pais se separem", diz. "Mas preciso de felicidade para dar o meu melhor para ele também." Todas as suas amigas separadas, com quem criou uma nova vida social, tomaram a decisão de sair do casamento.