De profissionais a mães

Cristiana Vieira - O Estado de S.Paulo

Mulheres contam como superaram as dificuldades de voltar ao trabalho, deixando um bebê em casa

Lembra daquela cena do primeiro dia de aula, quando sua mãe a acompanhou até a porta da escola e você, com medo de dar vexame, entrou sem nem olhar para trás, controlando aquela lágrima que estava prestes a saltar dos olhos? Muitos anos depois, aquela sensação de cortar o cordão umbilical pode voltar. Só que, dessa vez, a mãe é você.

Depois do período de licença maternidade, é chegado o momento de incorporar a profissional de outrora. "A dor de deixar minha filha para voltar a trabalhar foi maior do que a do parto", compara a mãe de primeira viagem Vanessa Paiva Ramos, de 26 anos, referindo-se a Beatriz, de 1 ano. "Quando cheguei perto do berço para dar um beijinho nela, desabei no choro", recorda-se. Conta que já cogitou não ter outro filho só para não ter de passar por isso novamente.

De volta ao trabalho, uma desagradável surpresa. Vanessa descobriu que havia perdido seu cargo: a colega que a substituiu durante a licença maternidade passou a ocupar sua vaga e ela tornou-se assistente da então substituta.

A diretora de consultoria da Ricardo Xavier, Nely Barbosa, explica que há casos em que a mãe nem volta a trabalhar. Sendo assim, é possível entender que a empresa também tem suas necessidades e precisa se garantir. "Da mesma forma que ela teve capacidade para ocupar aquela vaga, poderá voltar a assumi-la, pois já conhece o caminho e pode reconquistar a posição ou até ultrapassá-la", acredita.

Para evitar casos como esse, a sugestão da consultora é que a grávida deixe seu terreno pronto. Trabalhe até o último dia da gestação, apresente ideias e mantenha contato com as pessoas envolvidas durante sua ausência - isso quando a empresa tem espaço para tal.

PROMOÇÃO À VISTA

Nesse universo, há até os casos positivos, em que a profissional é promovida, como aconteceu com a sortuda Relze Fernandes - da Tokio Marine Seguradora -, mãe de Pedro, de 3 anos, e de Luana, de 1. Na primeira gravidez, ela foi promovida quatro meses depois da licença. Na segunda, passou de coordenadora para gerente de Inteligência de Mercado, cinco meses depois. "Mesmo com o coração apertado, consigo conciliar os lados mãe e profissional", diz. "Pude contar com minha equipe, que, até para marcar uma reunião, evitava comprometer o meu horário de tirar o leite."

As promoções após a maternidade não são tão raras quanto parecem. A assistente de seguridade da Philips do Brasil, Daniela Suganuma Raimondi, de 36 anos, mãe de Victor, de 11 anos, e de Carolina, que completa 1 ano este mês, já sabia que voltaria da licença para assumir uma nova função. Mas, apesar do estímulo profissional, também foi vítima das agruras. "Ficava angustiada, porque tinha de sair do departamento a cada três horas para tirar leite. Mas, com o tempo, isso foi diminuindo."

Daniela conta que, antes de voltar, ficou muito dividida. "Deixar um bebê tão pequeno com gente estranha dá um aperto no coração, vontade de largar tudo para ficar com eles. O pior é deixar os filhos com febre. Mas todos acabam se adaptando", acredita.

"A mãe tem de entender que esse é um período de adaptação, e que é importante contar com o apoio da empresa", diz a psicóloga com especialização na área de gestantes, Yolanda Dugo Lopes Santos. "O novo assusta, mas a mulher vai se adaptar e voltar ao equilíbrio. E vai ficar melhor se tiver uma retaguarda."

Já a diretora de consultoria Nelly Barbosa acredita que a mãe tem de administrar a situação com responsabilidade. Ou seja, deve entregar o trabalho no prazo, com qualidade, e mostrar interesse em se integrar novamente à equipe. O segredo é jamais se fazer de vítima. "Tem mulher que volta mais forte, mais guerreira, mais madura. É um momento de rever sua imagem, de mostrar sua capacidade de planejar a vida pessoal e profissional", sugere. "A mãe que telefona toda hora para a babá ou para o médico tem de entender que está no ambiente profissional."

Grávida de seis meses, a diretora de Desenvolvimento da Cia. de Talentos, Mayra Habimorad, procura uma pessoa de confiança para cuidar da filha. "Vou treinar a babá desde o começo." Também já mudou de endereço para ficar mais perto da empresa e, assim, poder almoçar em casa. E o marido instalou câmeras de monitoramento pela casa antes mesmo de a babá chegar.

HUMANIZAÇÃO

A coordenadora de Planejamento da Natura, Luciana Garcia Sobral, de 26 anos, é outra mãe de primeira viagem que voltou a trabalhar há um mês. Usufrui de um benefício que a empresa oferece há 17 anos: berçário. "No dia em que voltei ao trabalho, fiquei mais tranquila e segura por saber que a Melissa estava pertinho. "

Para garantir, Luciana deixa uma mamadeira de reserva, caso esteja muito ocupada na hora de amamentar a filha. Confessa que sentiu medo de perder o emprego, principalmente quando soube que seu departamento havia passado por uma grande reformulação. "Por outro lado, estava mais segura e mais focada", garante. Já a filha aprendeu que tem de esperar por sua vez, e está se desenvolvendo ao lado de outras crianças.

Sorte de Luciana, pois a consultora empresarial Glenda Moreira, que voltou da licença maternidade em janeiro, conhece poucas empresas que têm berçário e podem dar um suporte desse nível para as funcionárias. "O ideal seria haver um plano para a mãe voltar gradativamente. Assim, ela, a empresa e o bebê se acostumariam com o novo ritmo", sonha a consultora, que compara essa volta a um luto.

O psiquiatra e consultor de empresas Paulo Gaudêncio é categórico. "As empresas descobriram que o ser humano comprometido é mais produtivo. A que trata bem o funcionário tem lucro. Ao contrário daquelas que pensam no curto prazo." O ideal, segundo ele, é que a mãe negocie a possibilidade de mudar o horário durante a amamentação.

As mulheres têm todo o direito de viver seu papel profissional com competência. Só não podem transferir a culpa por trabalharem fora para o filho, "estragando" sua educação, acrescenta Gaudêncio. "Não podem criar crianças sem limites para compensar o tempo que passam no trabalho", adverte. "Hoje, elas assumiram uma tripla jornada e precisam lidar com essa conquista. Não devem sentir culpa, até para não alterar a produtividade. Quando a mãe se sente bem, trabalha bem."