De peito aberto

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

Hoje, o designer de bolsas Roberto Vascon é famoso nos Estados Unidos, mas sua história foi repleta de dificuldades

De catador de ferro velho em Minas Gerais a badalado designer de bolsas em Nova York. A trajetória de Roberto Vascon é fascinante. Imagine um menino nascido em Raposos, cidade próxima a Belo Horizonte, de família bem humilde, que, aos 12 anos, calçou seu primeiro par de sapatos, feito por ele mesmo. E hoje vende sandálias femininas e bolsas para atrizes famosas, nos Estados Unidos. Sua loja fica em frente ao Central Park, o mesmo local onde dormiu ao relento durante três meses, como um homeless (sem-teto). "Consegui ganhar a cidade mais difícil do mundo, Nova York", comemora Vascon, aos 46 anos. "Agora quero ver as brasileiras com minhas peças e abrir lojas no País. Tem gente que deseja ir embora daqui. Eu quero voltar. Não tive sapato quando criança, mas hoje posso calçar o Brasil. Chegou a hora de colher os frutos na minha terra." Em uma de suas visitas ao País, ele contou sua história de superação, a partir da infância pobre. Ainda moleque, conseguiu ingressar no grupo de balé do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, um dos maiores complexos culturais de Minas Gerais. Até os 18, morou na capital mineira com uma ajuda de custo da instituição. O balé, porém, ficou para trás quando prestou serviço militar. Um dos muitos fatos inusitados da vida do designer, digno de cena de cinema, aconteceu no quartel. Ele conta: - Num dia de folga geral, estava de plantão e passei pelo pátio vazio. Olhei para um lado, para o outro, a fim de me certificar de que não havia ninguém. Então fiz uma coreografia de balé, bem rápida, no local. Só que, em uma das janelas, vi um coronel. Imediatamente parei, bati continência e já esperava o pior, quando ele aplaudiu. Arriscar, como tudo indica, nunca foi o seu problema. Em busca de novas oportunidades, aos 20 anos, foi parar no Rio de Janeiro. Chegou à cidade maravilhosa de carona, em muitos caminhões. Sem trabalho, tirava seu sustento lavando carros em Copacabana. Dormiu na rua. A primeira oportunidade de emprego surgiu em uma loja de móveis, onde tornou-se vendedor. Depois, engatou um trabalho numa loja de moda masculina. Inconformado por não conseguir vender para estrangeiros - perdendo as fartas comissões - porque não sabia falar inglês, comprou passagem de avião só de ida e rumou para Nova York. Ao pisar em solo estrangeiro, encarou o metrô, desceu na Quinta Avenida e foi parar no Central Park. "Era inverno e, para me esquentar, usava jornal embaixo da roupa", lembra Vascon. "Sem dinheiro nem lugar para ficar, dormi em um banco do parque. Fiquei assim durante três meses, vivendo como homeless. Tirava meu sustento vendendo lixo. Mas era um mendigo limpinho, tomava banho em banheiros públicos. Nunca pedi esmola." Válvula de escape A partir daí, a história desse mineiro lembra mais um conto de fadas. Ou melhor, o filme A Vida é Bela, dirigido por Roberto Benigni, também co-autor e ator dessa produção que levou o Oscar. Como o protagonista, Roberto, o Vascon, não se deixava abater pelas dificuldades do dia-a-dia, que foram muitas. "Criei um mundo mágico para não pirar", confessa. "Desde pequeno, sempre tive muita fé e acreditei que as coisas dariam certo. Sou um eterno otimista." Quando ligava para sua mãe, no Brasil, em vez de chorar as pitangas, descrevia situações positivas. "Contava para ela que estava com uma vida boa, usando um belo casaco, em vez dos jornais que me protegiam sob a roupa velha. Dizia que morava em um lugar bacana, e não no banco do parque." Não é à toa que o filme de Benigni é o favorito do designer brasileiro. A virada radical na vida desse mineiro, conta o próprio, aconteceu a partir de um sonho maluco: ele via bolsas voando dos galhos de uma árvore. Achou essa imagem tão estranha, indecifrável, que não deu bola. Mas esse mesmo sonho voltou a povoar seu sono. Vascon, então, pegou os únicos 80 dólares que tinha no bolso e comprou retalhos de couro e material de costura. Confeccionou 12 bolsas e foi vendê-las na rua, em frente ao parque. Entre as milhares de pessoas que passaram por ele, apenas uma parou. Era a editora de moda do The New York Times, Nancy Harris. Ela não só comprou todas as peças como publicou uma nota no jornal. O sobrenome de Roberto, Vascon, nasceu da dificuldade da jornalista de pronunciar "Vasconcelos". A partir daí, o mineiro virou celebridade: não parou de dar entrevistas e vender bolsas. No auge, Roberto teve sete lojas - três em Manhattan, três na Pensilvânia e uma em Osaka, Japão. Entre a clientela, havia famosos como Roberta Flack, Oprah Winfrey, Cindy Lauper, Kathleen Turner e Sarah Jessica Parker, que desfilou alguns modelitos no seriado Sex and the City. Deixou para trás o Central Park e se mudou para um apartamento na sofisticada Park Avenue. Forrou o bolso de dólares. Em 1993, contudo, Vascon resolveu arriscar novamente e vendeu tudo o que tinha conquistado para viajar pelo mundo. Conheceu quase 100 países, usufruindo do bom e do melhor. Em cada lugar, contratava um professor local para aprender sobre história e etiqueta. "Como não pude estudar e mal terminei o primário, fui buscar conhecimento, porque dinheiro não me dava mais plena satisfação", conta. Após três anos na estrada, voltou para o Brasil, com uma mão na frente e outra atrás. Os amigos da época de glamour sumiram. Foi então que Vascon refez sua história novamente. "Voei para os Estados Unidos, sem nada, e voltei para aquele mesmo banco no Central Park. Não me arrependo. Nessa fase, que chamo de segunda vida, descobri o ser humano que eu era." Ele partiu para a luta. Ligou para Nancy e pediu emprestado 400 dólares, comprou material, fez 12 bolsas e foi vendê-las novamente. Voltou a virar notícia e sua história recomeçou. Abriu nova loja no Upper West Side, região chique de Nova York, a qual tem até hoje. Neste mesmo endereço, ocorreu um mal-entendido que não sai da sua memória. Certo dia, entrou na sua loja uma loira pequena com roupa de ginástica e óculos escuros. Minutos depois, vários fotógrafos se aglomeraram diante da vitrine. Humildemente, Vascon dirigiu-se à cliente, pediu desculpas e lhe explicou que toda aquela confusão era por causa dele e de suas bolsas famosas. E que aquelas pessoas estavam lá para fotografar seus produtos e copiar modelos. A loira sorriu. Era a pop star Madonna. Há um ano, o designer mineiro passou a fabricar calçados femininos. Nesta "segunda vida", Vascon comanda sua fábrica em Belo Horizonte. Por isso, passa um mês no Brasil e outro nos Estados Unidos. Por enquanto, apenas as norte-americanas têm acesso às suas bolsa e sandálias, com exceção também de brasileiras famosas e endinheiradas que vão até Nova York para comprar esses cobiçados produtos - que custam entre 600 e 2 mil dólares. Entre essas clientes, estão Wanessa Camargo, Sandra de Sá, Glória Menezes, Irene Ravache e Glória Perez. Por essas bandas tupiniquins, no entanto, o designer promete preços mais acessíveis. "Quero fazer meu nome aqui e ser objeto de desejo das brasileiras."