''''Currículo deve tornar aluno capaz de exercer auto-aprendizagem''''

Simone Iwasso - O Estado de S.Paulo

César Coll: psicólogo e educador[br]Consultor do MEC para a criação dos Parâmetros Curriculares de 1997, Coll defende atualização curricular contínua

Diretor do Departamento de Psicologia Evolutiva e professor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Barcelona, na Espanha, o educador César Coll é também um dos responsáveis por um modelo que inspirou mudanças na educação de vários países, inclusive o Brasil. Consultor do Ministério da Educação (MEC) entre 1995 e 1996, colaborou na elaboração dos nossos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), publicados em 1997. Agora, dez anos depois, ele defende uma revisão dessas normas. O professor falou ao Estado em sua última passagem pelo País, na semana passada, para discutir competências comunicativas num seminário organizado pelo Grupo Santillana. Há dez anos estabelecemos nossos parâmetros curriculares, dos quais o senhor foi consultor. Eles seguem válidos ou não? Foi um esforço de atualização e revisão dos conteúdos curriculares da base. Foi muito importante para colocar em dia o que os alunos deveriam aprender na escola. É claro que há um problema. Os currículos devem refletir o que é recomendável que os estudantes aprendam. Mas quem define isso é uma sociedade determinada, na qual eles estão inseridos. E essa sociedade está em mudança contínua. Portanto, continuamente deveria haver um mecanismo que permitisse atualizar os parâmetros curriculares, para ir incorporando os saberes e as competências que vão aparecendo de maneira emergente como necessários. Hoje temos necessidades de informação, de formação e de desenvolvimento de competências que há dez anos não tínhamos. Com o fenômeno da globalização, das tecnologias da informação e da comunicação, a internet, que há dez anos não tinha a abrangência que tem hoje, é uma das fontes fundamentais de comunicação e de informação. Portanto, está claro que um currículo estabelecido há dez anos necessita de uma revisão e de uma atualização. Quais seriam as competências necessárias hoje? Em todo o mundo neste momento há um movimento de esforço para redefinir quais devem ser essas competências. Há um consenso no sentido de que as competências necessárias para exercer a cidadania no mundo atual não são as mesmas de 20 ou 15 anos. E são principalmente as relacionadas com a mundialização cultural, da nova economia do conhecimento, dos fenômenos de tipo social que exigem isso. São, basicamente, competências cognitivas para que o aluno tenha autonomia, auto-aprendizagem, capacidade para seguir aprendendo, para adequar-se a situações, para absorver problemas e resolvê-los de maneira independente. São competências comunicativas e informativas, fundamentais hoje. A outra parte são as competências emocionais, num mundo interconectado, onde as relações sociais são intensas. A capacidade de se colocar no lugar do outro, poder interpretar o outro e a si mesmo, e de se equilibrar. A grosso modo, porque cada um diz em palavras diferentes, são esses grupos de competências os essenciais a serem incorporados hoje, mais até do que as clássicas, escolares, acadêmicas, que são as preocupações até hoje dos parâmetros. Para um país tão grande como o Brasil, os parâmetros devem ser flexíveis ou mais restritos? Os parâmetros aqui são orientativos, não prescritivos. Não se impõem, são referências para que prefeituras e governos elaborem seus próprios currículos. Isso é uma boa solução. Um currículo básico nacional deve ser muito específico, contemplar somente as competências-chave, básicas, que são aquilo que, se não foi aprendido no fim da educação básica, destina os alunos a uma vida marginalizada, os coloca numa situação de vulnerabilidade social extrema. A outra coisa é orientar quem formaliza, orientar sobre o que se considera desejável. Sim, podia ser muito pequeno e dar modelos de atuação, para cada um organizar seus próprios currículos. Mas aqui ainda não foram estabelecidos até hoje os currículos municipais e estaduais. Isso pode estar acontecendo por falta de capacidade técnica. O problema da autonomia, da descentralização, é um problema político, de instituição de poder e competências, mas também técnico. É complicado descentralizar se não há a competência técnica necessária para desenvolver seus próprios currículos. Se não tem a competência técnica, tem que assumir a responsabilidade técnica para isso. A única possibilidade seria que, na constituição do currículo, houvesse uma ajuda para transformar os parâmetros, com a ajuda de livros didáticos, em coisas concretas. E as competências comunicativas? Por que é tão difícil desenvolvê-las nos estudantes? Não acredito que seja tão difícil como se pensa, nem que se faça tão mal como se pensa aqui no Brasil. É ser capaz de conversar, de responder, de se comunicar, de se entender com as pessoas, com o outro. Uma parte da competência comunicativa é saber a hora de falar, de transmitir, e também ler, é claro. Mas não só ler textos acadêmicos, mas ler e produzir diferentes tipos de textos adequados a diferentes situações. O tipo que a escola pede é um tipo muito determinado de competências comunicativas, estamos todos baseados em apenas um dos usos da língua, e nos usos que aparecem cada vez menos no mundo atual. É preciso repensar os usos da língua escrita e falada no mundo atual, mas também os outros sistemas de signos, como a imagem. Esse é um debate que está sendo travado em todo o mundo. Quem é: César Coll Diretor do Departamento de Psicologia Evolutiva e professor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Barcelona Consultor do Ministério da Educação entre 1995 e 1996, colaborou na elaboração dos Parâmetros Curriculares Com Jesús Palacios e Álvaro Marchesi, é autor de Desenvolvimento Psicológico e Educação (3 volumes), entre outros