Cultura para menores

Vera Fiori - O Estado de S.Paulo

Músicos, dramaturgos, contadores de histórias e escritores fazem um trabalho exemplar para o público infantil

Com medo da violência, os pais confinam as crianças entre quatro paredes, à mercê da internet, videogames e programação escassa e medíocre da TV. Sem direito às brincadeiras de rua, o mínimo é proporcionar aos pequenos, momentos de diversão e poesia. Em meio ao farto entretenimento trash que abastece o público infantil, poetas, escritores, atores, autores de teatro e músicos encantam pais e filhos com um trabalho de qualidade. Quem tem criança por perto, com certeza, já se pegou cantarolando um trecho da música Sopa ("o que tem na sopa do neném?"). A saborosa receita musical é um dos hits do Palavra Cantada, formado pelos compositores Paulo Tatit (ex Grupo Rumo) e Sandra Peres. A dupla vendeu mais de 1 milhão de CDs. O segredo? Um trabalho honesto e sensível. "Além do ritmo e dança, a criança é fisgada por uma boa história, como em Rato, e com elementos lúdicos, caso das músicas Fome Come e Sopa", fala Paulo.   Sucesso: crianças e adultos lotam os shows do Palavra Cantada   Tudo começou nos anos 1990, quando, na volta de uma viagem aos Estados Unidos, Sandra trouxe um disco de cantigas de ninar com arranjos impecáveis. "Pensamos: por que não fazer algo parecido?", fala a cantora. Sem apelar para gritinhos, melodia pobre e rimas fáceis repetidas à exaustão, a dupla conquistou o público. "Criança é sensível, e o músico tem de ser muito respeitoso com ela." A inspiração, diz, vem da observação da vida, temperada com muito ritmo, humor e poesia. Um exemplo é a canção Irmãozinho, que, por sinal, os pais curtem mais do que as crianças. Em ritmo fúnebre, fala da chegada do novo irmãozinho que mexe com toda a família. Sandra e Paulo fecharam o ano de 2008 com quatro lançamentos musicais e a opereta Ramom & Maraó, que, segundo Paulo Tatit, comprova o quanto as criança são abertas a propostas musicais mais sofisticadas:"Esta opereta é um texto que meu irmão Zé Tatit criou em cima das músicas Cenas Infantis, de Schumann. Nós todos ficamos impressionados com o respeito, silêncio e ovação que recebemos nas apresentações vespertinas para crianças de 8 a 13 anos. E olha que Ramom e Maraó é um espetáculo narrado, com músicas de altíssimo nível, sem apelação para dar pique... e as crianças ficavam num respeito emocionante. Quando acabava, aplaudiam veementemente. Quando a obra é bem feita, com roteiro claro, e tudo encadeado, sem apelações, e sem duvidar da capacidade de entendimento da criança, tudo funciona plenamente."No teatroA infância é tão preciosa que inspirou um monólogo para adultos: Infância, o Cemitério de Brinquedos, do ator e dramaturgo Milton Morales Filho, da companhia de Teatro da Gioconda. Morales é ator e autor das peças infantis, O Detector de Sacis, O Cadarço Laranja (com texto premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte) e História da Chuva - Gênese. Que ninguém espere ver no palco lições de moral. O espetáculo Cadarço Laranja, indicado para crianças na faixa de 8 anos, segundo Morales, trilha o caminho do surreal e vai fundo nas questões existenciais. Sobre seu trabalho com o público infantil, diz que foge de atitudes paternalistas no palco. "Compartilho com eles a experiência de vida como artista que sou."O teatro, observa, seduz crianças e adultos de formas diferentes. "Crianças menores se ligam nas cores e nos movimentos físicos dos atores; os maiores, nas fábulas e nas palavras, e os pais, nas questões filosóficas."Na literaturaAcaba de sair do forno mais um livro de Heloisa Prieto, edição caprichada da Cia. das Letrinhas, em parceria com Magda Pucci. De Todos os Cantos do Mundo vem com um CD que contém doze canções de lugares e culturas diferentes. Mestra em comunicação e doutoranda em teoria literária, Heloisa é tradutora e autora de diversas obras de literatura infanto-juvenil. Já escreveu textos para teatro, cinema e TV - participou, inclusive, do Castelo Rá Tim Bum. São 50 títulos, como Lá Vem História Outra Vez; Balada; a série Mano Descobre, em parceria com o jornalista Gilberto Dimenstein, e O Imperador Amarelo, com o psiquiatra e escritor Paulo Bloise.   Letrinhas: a escritora Heloisa Prieto lançou mais um títuloHeloisa nega que a inspiração venha de sua infância, por sinal, tão agitada que daria um livro de aventura. "Uma amiga costuma brincar que sou filha de Stevenson e Mary Sheeley." O pai, descendente de espanhóis, era esportista e tinha espírito aventureiro. A mãe era uma exímia contadora de histórias de terror. Tinha também um tataravô baiano que hospedava Maria Bonita e Lampião em suas terras. Conta que brincou muito nos terreiros de café da família. Alguns autores da infância e adolescência: Monteiro Lobato, José de Alencar, Andersen e Camus, só para citar alguns.Teve duas babás incomuns: Zelão, um peão da fazenda da família, e uma senhora japonesa que foi adotada pelos seus pais. "Ela não falava português e mandava em todo mundo. Como sou hiperativa, diziapara mim: 'ficar sentada, olhando planta'. Pode-se dizer que este foi meu primeiro contato com meditação", diverte-se. A casa dos Prietos, no Brooklin, era um eterno entra-e-sai, muita gente falando ao mesmo tempo. "Tínhamos 14 cachorros, papagaio, e cada hóspede que chegava ia para a edícula nos fundos da casa. Vai ver que, por isso, preciso de barulho para produzir."Autora de Lenora - primeiro livro infanto-juvenil, uma trilogia gótica que gira em torno de personagens femininas -, acompanha a literatura dos blogs com atenção. "O livro foi perdendo o ar sagrado com os blogs. Os jovens escrevem, postam seus autores e poemas favoritos. Quando comecei, predominava a elite do século 19, os escritores malditos, angustiados. Hoje é a vez de novas mídias, novos perfis de autores."Seja por meio de palestras ou e-mails, o contato com o seu público é sempre uma surpresa. "Um garotinho da quarta série questionou por que não coloquei Confúcio no livro O Imperador Amarelo, fábulas e lendas dos antigos sábios chineses. Já uma adolescente me escreveu, contando que a mãe não a deixou ler Lenora. TV pode e livro não pode? Respeito a opinião dos pais, mas os livros ajudam a alicerçar o pensamento e são um passaporte para o diálogo", argumenta Heloisa.Na TVA TV Cultura é referência em programação de qualidade para crianças. Em nova temporada na emissora, o programa Cocoricó está cheio de novidades. Os personagens Júlio, Lilica, Zazá e Alípio, acompanhando os novos tempos, vão aprender a conviver com a tecnologia. João, primo de Júlio que mora na cidade grande, leva um laptop para o campo, dialogando com a meninada atual, ligada em tecnologia. Na mídia: Fernando Gomes luta para que a TV aberta aumento as opções de programas infantis"Justamente a renovação do público é o lado gratificante do meu trabalho", fala o manipulador de bonecos e diretor, Fernando Gomes, 20 anos dedicados ao público infantil. Recentemente, durante a temporada do Cocoricó no teatro, teve um contato maior com o público e ficou feliz em ver adultos no espetáculo com bebês de colo. "Essa aprovação dos pais valida o trabalho de toda uma equipe que faz tudo com muito amor."Uma antiga briga de Fernando é pelo maior número de opções de programas infantis. "Por mais que se critique programas como o da Xuxa, devemos agradecer as emissoras que investem nesse segmento. Devia ser obrigatório por lei que cada canal tivesse um tempo determinado por dia para produções infantis locais, para que não preencham o horário apenas com a exibição de desenhos importados."Contador de históriasQuando o escritor gaúcho Hermes Bernardi Jr. desenrola o seu tapete gigante nos parques públicos, é uma alegria só. Contador de histórias dos bons, ele atiça a fantasia de seus interlocutores, crianças de todas as idades. O projeto Tapete Mágico Espaço de Leitura é um espaço de leitura pública, que resgata o ato prazeroso de ler ao ar livre. "Notei que poucas pessoas têm o hábito de levar livros aos parques e, assim, surgiu o projeto." Editoras doaram os 2.500 livros do acervo, disponibilizados em malas, dispostas sob o tapete de 66 metros quadrados.   Era uma vez: o contador de histórias Hermes Bernardi Jr. encanta crianças e adultosHermes viaja pelo Brasil com os projetos Colcha de Histórias e Terça eu Conto pra Você! Neste último, que acontece todas as terças, narra histórias para pessoas da terceira idade e visita instituições que abrigam crianças que sofrem maus tratos. Sobre sua atividade, comenta:"Contar histórias é um rito, pelo qual me aproprio das habilidades dos atores para melhor me expressar. Procuro não passar conceitos e valores. Gosto do lirismo, da poesia, da metáfora. Além de incentivar voos literários, a história oral aguça a curiosidade e estimula a leitura, arrebatando novos leitores. Também acredito que o livro é um mediador de afeto que pode aproximar pessoas com vínculos desgastados."Tem dez livros publicados e seu primeiro título, Abecedário Alegre do Porto, foi adotado pelas escolas da capital gaúcha há dez anos. Já Planeta Caiqueria, publicado pela Editora Projeto, recebeu o selo PNBE 2005, do MEC. Em 2007, publicou Casa Boto, pela DCL. No teatro infantil, participou da peça Passa, Passar e P de Sapato, e adaptou para crianças A Tempestade, de William Shakespeare.