Crise na moda

Mariana Abreu Sodré - O Estado de S.Paulo

Como agem as marcas e os clientes para lidar com as novas regras que regem a lei de oferta e de procura

Amir Slama, estilista e presidente da Abest (Associação Brasileira de Estilistas), conta que uma das palestras com maior audiência da associação foi a dada recentemente pela consultora de economia Lidia Bronstein. É um indício de que a crise está na moda. Mas Lidia diz que o setor fashion - apesar de ter ocorrido uma pequena queda no ramo têxtil - sofrerá pouco. Então, a crise ainda não afetou a moda? "Por enquanto, o mercado não teve um impacto imenso pela crise, como já aconteceu com os setores da construção civil e o automobilístico, mais dependentes do crédito. Este setor não está protegido, mas a tendência é que seu crescimento tenha uma redução leve, ou se estabilize. O momento é de atenção, deve-se proteger da concorrência externa e oferecer o novo. O lado bom é que lidar com o risco não é uma novidade para a moda. Contudo, o futuro do setor na crise dependerá muito do nível de emprego e renda do consumidor", define a especialista em economia. Segundo Amir Slama, o varejo já sentiu um leve cutucão da insegurança financeira, com quedas de 2 % a 5 % nas vendas de janeiro de 2009, em comparação com a mesma época do ano passado. Em contrapartida, Slama revela que as vendas para compradores internacionais na última São Paulo Fashion Week cresceram em torno de 25%. "E olha que era coleção de inverno, que normalmente tem um apelo menor do que as coleções de verão do Brasil para o mercado exterior ", frisa Slama. "Mas só teremos um diagnóstico mesmo,depois dos showrooms do exterior, que são em março", emenda. "Caso comparemos a crise com o tsunami, diria que a onda ainda não passou", completa. Algumas marcas, de olho na "ondulação" do mercado, tomam suas precauções. A Adidas, por exemplo, aposta numa nova linha, que mescla economia e consumo consciente. Trata- se da SLVR , que elimina etapas de confecção, reduzindo o uso de matéria-prima, agressão ambiental e custos. Assim, um tênis, ao invés de 25 peças coladas, usa sete costuradas, com menos desperdício e menos custo. Já a Uma, de Raquel e Roberto Davidowicz, reduzirá em 25 % os preços de suas peças na nova coleção. "A resposta da Uma para o momento atual da economia mundial é: preços melhores e maior investimento em número de lojas e distribuição. Crescer, em primeiro lugar, com investimentos (abertura de novas lojas, etc.), e melhora nos preços, para democratizar ainda mais a marca. Muitos consumidores esperam promoções e/ou liquidações para comprar ", afirma Roberto Davidowicz.TENDÊNCIAS Como tudo ainda é muito recente, da mesma maneira que é complicado definir o cenário atual, é difícil ter certeza de que as novas tendências da moda - mais austera - surgiram sob influência da crise. Maria Prata, editora de moda da Vogue, confia que só o pavor da recessão assolou o ambiente fashion. "Nas coleções de inverno, por exemplo, vimos muitas marcas se agarrando àquilo que realmente sabem fazer, sem grandes surpresas. O inverno 2009 teve muitos clássicos. Essa mesma proposta, que é menos ousada, foi apresentada antes nos desfiles internacionais. Mas não dá para saber se os clássicos na moda nacional são continuidade das tendências internacionais - e lá foram um reflexo da crise - ou são consequência do medo da sua chegada por aqui", comenta. Lilian Pacce, apresentadora do GNT Fashion, por sua vez, crê que a próxima temporada de moda internacional (Milão, Paris, Nova York) será a que de fato refletirá a possível influência da economia. "Acredito que dois caminhos serão tomados pelos estilistas: a valorização das raízes (culturais) e a volta ainda mais forte dos clássicos", aposta. "Ninguém está pensando muito em glamour não", emenda Lilian, apontando que o caminho tomado pela indústria fashion pós crise de 29 não se repetirá. Na época - outros tempos, outra crise - o cinema ( de grande relevância no mercado de moda) apostou no glamour como escapismo. Agora, a tática será outra. Diretora do site inglês WGSN no Brasil - portal de pesquisa e comprovação de tendências de consumo e comportamento, cujos serviços são requisitados por grandes marcas nacionais e internacionais -, Andrea Bisker endossa as palavras de Lilian Pacce e Maria Prata. "A opulência dará lugar à qualidade com simplicidade. Os ricos, muito ricos, continuarão gastando no luxo, mas o consumo por aspiração, em geral (ou fetiche da mercadoria), diminuirá. O desejo será pelo autêntico e pelo duradouro, peças que resistam a estações. É o momento do Slow Fashion, da moda feita com qualidade e durabilidade", afirma Bisker. "Os estilistas estão revisitando peças icônicas (clássicas) e, nesta valorização do bom e atemporal, o vintage ganha espaço novamente", completa Andrea. "Outra medida adotada pelo mercado é a reutilização de matéria-prima, além do corte de processos, como faz a Adidas", comenta. O QUE FAZEM AS CLIENTESNessa maré de reutilização de peças em novas versões, a consultora de imagem Kika Aidar vem incrementando sua cartela de clientes. Para Marília Freitas, publicitária, por exemplo, Kika transformou o longo em curto, deu nova vida a jaqueta jeans, trocando os botões da peça. E, de um tecido esquecido, fez uma blusa bacana. A calça jeans, que não saía do armário, virou minissaia e, hoje, está entre as peças mais usadas por Marília. "Muitas vezes, a cliente não precisa fazer compras para incrementar o visual. Basta dar nova leitura a peças antigas, gastando apenas com uma boa costureira. Mas, na maioria das vezes, a mulher não consegue enxergar essa possibilidade sozinha", explica Kika, que, quando sai às compras com suas clientes, foca muito no clássico. "Peças chave são sempre ótimas soluções. Em tempos de crise, tornam-se ainda mais necessárias", destaca. A arquiteta Maraí Valente é adepta da transformação de roupas há tempos. "Os estilistas que me desculpem, respeito muito eles, mas sempre mexo em suas criações", brinca Maraí, que, por meio de ajustes aqui e reformas ali, dá vida mais longa às peças que compra. "Assim, duram estações. Demoro para me cansar delas e, quando acontece, e a roupa está em bom estado, doo para uma amiga querida", conta ela, que costumava participar de um bazar de "escambo fashion" com a turma. Maraí só não deu continuidade à prática, pois a brincadeira deu tão certo que hoje é business nas mãos de Maria Eugenia Mourão, escritora e tradutora. Maria Eugenia faz a coleta de roupas das amigas (e das amigas das amigas), paga pouco por uma ou outra peça e, em um bazar chamado B.loft, comercializa tudo por, no máximo, R$ 180,00. O bloft conta com peças de designers e marcas bacanas, sempre em estado perfeito. "Tem peças que saem por R$ 15,00. A periodicidade dos bazares se dá de acordo com o garimpo das roupas. Mas quando acontece (sempre nos finais de semana) é um sucesso", conta Maria Eugenia. Uma capa de chuva, ideal para o atual clima paulistano, sai por R$ 37,00. Feiras de escambo fashion entre amigas são cada vez mais comuns. É um hábito nascido no Reino Unido, onde a prática é corriqueira. Tanto é, que por lá, já há sites especializados ou que oferecem swapshops (compra por troca). Os mais concorridos na seara do vestuário e acessórios são: swapz.co.uk, whatismineisyours.co.uk (nome ótimo: "o que é meu é seu") e fashionspace.com. Neles, há sempre alguém querendo trocar uma bolsa por um vestido. E, algumas vezes, vale pagar o transporte da peça daqui para lá, e de lá para cá.