Copacabana, um paraíso contraditório

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

Uma moça muito boazinha e outra totalmente má que são absolutamente iguais. Você já viu essa trama antes, e não faz muito tempo. Há exatos dez anos, em 1997, as gêmeas Ruth e Raquel movimentavam as tardes da Globo no Vale a Pena Ver de Novo. E, como denuncia o nome do programa, aquilo era só uma reprise. Ou melhor: cópia da cópia. A trama original de Mulheres de Areia, escrita por Ivani Ribeiro, estreou no distante 1973, com Eva Wilma no duplo papel. Vinte anos depois, em 1993, Glória Pires herdaria a missão de dar vida às famosas gêmeas. Agora, o desafio é de Alessandra Negrini, que a partir de amanhã, com a estréia de Paraíso Tropical, se desdobra entre a meiguice de Paula e a malícia de Taís. Gilberto Braga dá de ombros para as críticas sobre a repetição do manjado recurso das gêmeas com personalidades opostas. ?Dentro do meu universo estou, sim, propondo algo diferente. Após 17 novelas, já fiz quase tudo o que podia, mas as gêmeas estavam na lista do que ainda não tinha feito. Daí as duas irmãs. Uma é boa, a outra é má, o que representa a própria dualidade do Brasil. Gosto muito de trabalhar com esses clichês, não vejo problema nisso. Aliás, não é difícil que aconteça um assassinato misterioso com um personagem secundário. Não me importo de apelar para tudo para distrair o público, só dispenso esses elementos sobrenaturais?, diz o autor. O romantismo exacerbado da trama, que pouco se encaixa no estilo ágil cheio de ação do autor, é uma herança e homenagem à autora Janete Clair, com quem ele deu os primeiros passos na teledramaturgia brasileira. Já no primeiro capítulo Paula e Daniel (Fábio Assunção) se apaixonam, em mais um daqueles casos de amor à primeira vista . Detalhe: a primeira noite do casal se passa em uma ilha deserta, no melhor estilo A Lagoa Azul. Eles vão parar ali após uma tempestade em que a mocinha salva a vida do galã. É claro que, logo no início da trama, o lindo romance será interrompido por algum daqueles clássicos imprevistos de novela: Paula perde a mãe, Daniel será preso por conta de uma armação provocada pelo vilão Otávio (Wagner Moura). Sim, pode preparar o coração para mais um terrível embate entre o bem e o mal, especialidade de Braga. Foi assim em Celebridade (2003). E, aliás, tem sido assim desde Dancin´ Days (!978), com as terríveis armações de Iolanda (Joana Fomm) contra sua irmã (Sônia Braga). Se é certo que Manoel Carlos fez do Leblon seu locus dramático, assim como Wood Allen fez com Marathan, agora chegou a vez de Copacabana. Ali, em torno do fictício edifício Copamar, vivem os novos habitantes do horário nobre. ?Passei 20 anos naquele bairro, confundo muito a vida com o trabalho?, diz.