Controlar remédios é o primeiro passo

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

A guerra contra o espelho não escolhe as vítimas. O que até bem pouco tempo parecia ser um problema enfrentado apenas por modelos, agora está presente em todos os universos femininos. A obsessão por emagrecer torna cada vez mais freqüente as histórias de pessoas que perderam a vida por causa dos efeitos da anorexia. Os remédios que inibem o apetite, vendidos em farmácias, nem sempre com a orientação médica, acabam como grandes aliados dos transtornos alimentares. Por esta razão, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) quer apertar o cerco contra a venda deste tipo de medicamento.A proposta é modificar a forma de prescrição e regular as receitas médicas dos chamados anorexígenos. ?Estamos trabalhando com essa possibilidade desde 2003, mas os casos recentes das meninas que morreram com pouco mais de 30 quilos fizeram com que antecipássemos as nossas ações?, disse o gerente de inspeção de medicamentos da Anvisa, Roberto Barbirato.Os exemplos que fizeram a Agência antecipar as modificações no sistema de compra e venda dos inibidores de apetite não são difíceis de ser encontrados. Apenas nos últimos cinco meses, duas modelos, uma manicure e duas estudantes morreram de anorexia. A primeira delas foi a modelo Ana Carolina Macan, de 21 anos, que faleceu em novembro do ano passado, com 1,74 metro e pesando apenas 40 quilos. O caso de Ana Carolina tomou conta das páginas de revistas, jornais e da programação dos canais de televisão e fez até o mundo fashion repensar o modo de escolher as modelos que representam suas marcas de roupas. Manifestações de agências da moda foram vistas nas passarelas do mundo todo, inclusive nos desfiles realizados em São Paulo e no Rio de Janeiro.Diferença nas receitasSegundo o gerente da Anvisa, Roberto Barbirato, hoje esses anorexígenos são prescritos com receita azul, de uso não controlado. Se as mudanças forem aprovadas, os inibidores de apetite serão prescritos com receita amarela, usada apenas, por exemplo, para produtos à base de morfina. Para retirar este receituário, o médico precisaria ir até a vigilância sanitária. ?A maior dificuldade para conseguir o papel da receita vai fazer com que o especialista receite o remédio de uma forma mais racional, apenas quando o paciente não responde a nenhuma outra alternativa para emagrecer, como exercícios físicos, mudanças na alimentação entre outros?. Para propor a mudança, a Anvisa adotou o método de consulta pública e, até ontem, solicitou a opinião não apenas de médicos e profissionais de saúde, como também da população em geral. O gerente de inspeção de medicamentos disse que as contribuições dos leigos em medicina, oferecendo experiências pessoais, são fundamentais para elaborar uma mudança que abrange todos os grupos sociais. ?A Anvisa possui o conhecimento técnico, mas não vive o dia-a-dia.?De acordo com os médicos especializados, se usados por mais de 30 dias, esses remédios que inibem o apetite podem causar dependência física e psíquica, além de problemas cardíacos.A reportagem do Sua Vida ouviu especialistas para saber se eles aprovam a nova proposta da Anvisa. De maneira geral, os profissionais concordam que a mudança na prescrição é necessária, mas acreditam que só aumentar o controle das receitas não é suficiente. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia, por exemplo, pede a proibição total da manipulação dos inibidores de apetite. ?É uma das únicas maneiras de conter o uso abusivo por parte dos pacientes e médicos?, acredita o membro da Sociedade, Walmir Coutinho. Já o coordenador e psicólogo do Ambulatório de Bulimia e Anorexia do Hospital das Clínicas (Ambulim), Cristiano Nabuco, acredita que a dificuldade no acesso às drogas vai ajudar, mas não resolve por completo o problema. ?É importante para auxiliar no tratamento dos transtornos alimentares. Mas sem fiscalização, não adianta?, afirmou. ?Mas reforço que as modificações são extremamente necessárias. No Ambulim, temos pacientes que estão em tratamento, ou seja, já estão em fase avançada dos transtornos, e ainda assim conseguem comprar estes remédios?, disse.