Conteúdo, a revolução que falta

Carlos Alberto Di Franco - O Estado de S.Paulo

Focas amestrados, armados de afiadas garras investigativas, estão prestes a encarar o mercado de trabalho. A eles dirijo estes breves recados e o meu abraço mais afetuoso.Para quem acredita que o sucesso das empresas de comunicação depende de sua capacidade de dar ao público o que ele quer (ou imagina que quer), proponho uma reflexão: quem só vai atrás de supostas demandas do mercado pode conseguir sucesso imediato, mas corre o risco de perder prestígio a longo prazo. No setor da informação, a empresa que mais se fortalece é aquela que tem a coragem de mudar, mas, ao mesmo tempo, crê em alguma coisa, tem uma mensagem para transmitir. O verdadeiro crescimento sustentado rejeita o imediatismo do vale-tudo mercadológico. A fórmula de um bom jornal se resume a uma equilibrada combinação de mudança e coerência. Os jornais, sobretudo os que têm história e um patrimônio ético a preservar, não podem atirar-se em aventuras inconseqüentes. As mudanças, contínuas e necessárias, não devem alterar o DNA do produto, não podem arranhar sua identidade editorial. Mas, ao mesmo tempo, não há nada de mais pernicioso que a teimosia dos comportamentos imobilistas. É preciso - e é aí que reside a dificuldade - conquistar novos leitores sem perder a fidelidade dos antigos. A empreitada, fascinante, pressupõe a decisão estratégica de travar uma verdadeira revolução nos conteúdos. A reinvenção do jornalismo pede a ousadia do revolucionário e o realismo pragmático de quem sabe que o sucesso de uma publicação depende de sua fina sintonia com as verdadeiras (não as aparentes ou supostas) necessidades do mercado. O jornal de prestígio é o resultado da sinergia entre as políticas editoriais e as possibilidades do negócio.Os recursos humanos são as peças-chave das empresas informativas modernas; daí o forte empenho do Grupo Estado em seu Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado. O principal fator de diferenciação é a qualificação das pessoas que fazem o produto. A diferença entre dois jornais, duas revistas, duas TVs não é o suporte tecnológico, mas o talento e a competência dos seus quadros. Por trás do sucesso de veículos como The Wall Street Journal, The New York Times e Financial Times existem anos e anos de investimentos em formação de pessoas. O tempo e o dinheiro gastos em atrair, formar e aperfeiçoar os melhores profissionais são um investimento extremamente rentável.Uma outra questão, com a qual tenho certeza os alunos do Curso Estado de Jornalismo entraram em contato durante o programa, é a necessidade da revalorização da reportagem e da informação local. Autor do mais famoso livro sobre a história do The New York Times, Gay Talese põe o dedo na chaga da crescente ausência de boas reportagens. "Não fazemos matéria direito, porque a reportagem se tornou muito tática, confiando em e-mail, telefones, gravações. Não é cara a cara. Quando eu era repórter, nunca usava telefone. Queria ver o rosto das pessoas. (...) Não se anda na rua, não se pega o metrô ou um ônibus, um avião, não se vê, cara a cara, a pessoa com quem se está conversando", lamenta Talese. Tem razão. Os jornais de maior sucesso são aqueles que decidiram retomar os investimentos na reportagem de qualidade. Por outro lado, a globalização, argumento utilizado para justificar certo descaso com a informação local, está produzindo, na prática, um fenômeno curioso: quando tudo parece ser transnacional, o local ganha sabor e importância. O leitor quer saber o que acontece na sua cidade, no seu bairro, no seu quarteirão. O consumidor quer saber em que medida o global pode afetar o seu dia-a-dia e o seu bolso. E é isso o que os leitores esperam de nós.O que vai agregar estavelmente novos leitores não é a concessão acrítica aos aparentes apelos do mercado. O que vai atrair novas audiências é uma ágil e moderna prestação de serviços, é a informação que não traz o gosto requentado do telejornal da véspera, é a matéria que ultrapassa a superficialidade, é a pauta ousada e criativa.Me recordo agora de um amigo gozador: costuma dizer-me que a expressão "jornalismo de qualidade" é contraditória em si mesma. Outro dia, quis exemplificar-me essa sua opinião. "Veja - dizia - boa parte do noticiário de política não tem informação. Está dominado pela fofoca e pelo espetáculo. Não tem o menor interesse para os leitores. Não resolve nada, não questiona nada, não melhora a vida das pessoas." O desinteresse crescente dos leitores pelas páginas de política, mesmo em período eleitoral, está em relação direta com o excesso de aspas, a falta de apuração e a substituição de matéria jornalística por transcrição rotineira de fitas.As redações, meus caros focas da turma de 2007, esperam ansiosas pela chegada de vocês, pelo oxigênio da sua juventude e pela certeza da sua competência. Sejam felizes. * Carlos Alberto Di Franco é professor de Ética do Curso Estado de Jornalismo.