Conflitos na passarela

- O Estado de S.Paulo

Mesmo no SPFW há medo de se expor

No debate sobre qual biquíni vai ganhar as praias no próximo verão, também há espaço para as conversas que nem sempre ficam tão expostas no restante do ano. O mundinho fashion, conhecido como o palco dos estilistas e modelos poderosos, abriga nos bastidores e platéias os conflitos de quem quer, mas nem sempre pode, mostrar o que sente.São meninos que gostam de meninos, mulheres que preferem o sexo feminino, gente que gosta dos dois. Falar de preconceito em uma Cidade que há uma semana foi sede do maior evento gay do mundo pode parecer incoerência. Mas é uma realidade encontrada até em um ambiente que ´desfila´ o respeito a qualquer escolha sexual.´Aos 7 anos, eu já sabia que era diferente. Sempre fui uma criança delicada e voz fina. É claro que eu não sabia que era gay, mas já me sentia diferente. Sei que foi um choque para os meus pais´, falou Jhonny Luxo, amigo inseparável do estilista Alexandre Herchcovitch, que começou o acompanhamento psicológico já nesta idade em que não se identificava com os outros garotos da sua faixa-etáriaNão são todos que, assim como Luxo, têm convite VIP para qualquer festa fashion. Não são todos que se descobrem ainda pequenos. E principalmente, a maioria não tem o privilégio da terapia constante, como conseguiu o estilista.Segundo os especialistas em comportamento ouvidos pela reportagem, a maior parte dos homossexuais vive mais próximo deste assunto quando estão na adolescência. De acordo com o psiquiatra do Hospital das Clínicas, Alexandre Saddeh, especializado em sexualidade, na fase juvenil as sensações são muitas, aglomeradas e é dentro de casa, sozinho no quarto, que os homossexuais vivem a pressão de um mundo que aceita muito melhor quem é heterossexual.´É uma fase em que acontece boa parte das descobertas, influenciada pelos hormônios. Mas as crianças ainda são educadas para seguir um padrão perpetuado há anos. Quando fogem das expectativas dos pais, que planejam sempre meninos ou meninas heterossexuais, ainda não encontram espaço na sociedade´, falou o psiquiatra.O receio da exposição aparece, inclusive, nos corredores da SPFW, onde tudo parece mais libertário. O empresário Almeida, por exemplo, até disse que ´é mais fácil sair do armário aqui´. Mesmo neste ambiente acolhedor, a reportagem encontrou barreiras, impostas por muitos que preferiram não comentar o assunto.DicasA dica do psiquiatra Saadeh vale para todos que convivem com o conflito da sexualidade, de qualquer gênero: ´O primeiro passo é não achar que está fazendo coisa errada. Comprar um valor da sociedade é um autopreconceito. Um dos mais difíceis de vencer.´O depoimento do jovem Neumir Afonso confirma a tese. ´Eu era muito reprimido. Quando eu me descobri homossexual, na adolescência, tudo ficou melhor na minha vida´, declarou o jovem, que foi ao SPFW com o namorado.