Companheira de viagem

Fabiana Caso - O Estado de S.Paulo

O cicloturismo é um jeito econômico e ecológico e de conhecer lugares. Seja numa trilha de um dia ou em grandes travessias

Numa tarde de verão, a professora de educação física Yasmin Costa trafegava sozinha, em sua bicicleta, pela estrada Alagoas 101. Ia do Recife a Salvador, cantando, como costuma fazer enquanto pedala. De repente, foi surpreendida por um "enxame" de ciclistas: cerca de 100 adolescentes que saíam de um colégio a cercaram, curiosos. Admiraram-se quando ela contou que era de São Paulo e ia para Salvador. A cena, que aconteceu em 2002, é citada como um exemplo de interação em viagens de bike. A enérgica Yasmin, de 54 anos, é uma das mulheres que aderiram ao cicloturismo. "Na bike, todos sentem que você é um igual. O carro é como uma bolha", comenta ela, que nunca tirou carta de habilitação para automóveis. Curiosamente, não teve bicicleta quando era criança: começou suas aventuras sobre as duas rodas depois da separação do terceiro marido. Durante uma viagem à Bahia, lançou um desafio para um amigo que também estava vivendo problemas conjugais: sugeriu que alugassem bicicletas e fizessem uma travessia de 30 quilômetros, de Cumuruxatiba a Barra do Caí, como uma forma de terapia. "Voltamos pela praia, a maré estava baixa. E meu amigo cantava, seus olhos brilhavam tanto que faiscavam", lembra. "Decidi que queria viajar de bike." Isso foi em 2000. Desde então, passou a fazer uma viagem anualmente. Agora, já pensa nos 11 meses que faltam para as férias de dezembro, dando início ao seu ritual de planejamento. Está avaliando roteiros para uma pedalada por Belém e pelo estado do Maranhão. Yasmin costuma viajar de avião, despachando a bike na bagagem, até a cidade de saída do roteiro. Vai sempre sozinha: gosta da liberdade de optar, sem precisar fazer concessões, e da abertura para conhecer outras pessoas. "Nos meus três casamentos, eram os maridos que decidiam os roteiros de férias. Agora quero decidir tudo", justifica. Sobre os riscos de estar só, comenta: "sempre ando com roupas velhas e com pouco dinheiro." Além disso, não costuma pegar estradas de terra, distantes, tampouco pedala aos domingos. "Há muitos bêbados na estrada." Entre as principais travessias que já fez estão Porto Seguro - Itacaré, Recife - Salvador, Olinda - Fortaleza e Serra da Graciosa - Ilha do Mel. Quase sempre se hospeda em albergues. "São lugares baratos, limpos e onde tenho facilidade para conhecer pessoas", comenta. Já teve patrocínio do Albergue da Juventude para mapear novos roteiros de bike na região de São Miguel das Missões (RS). De tão envolvida no assunto, acabou se tornando uma das diretoras do Clube de Cicloturismo (www.clubedecicloturismo.com.br). Recebe em sua casa associados de fora de São Paulo e sempre está trocando dicas. "Cuidamos uns dos outros. E recomendamos bares, restaurantes e pousadas nas cidades que já fomos", conta. "São minha família aqui em São Paulo." Yasmin, professora de fitness, destaca os benefícios físicos e mentais da pedalada. "Emagrece e enrijece os músculos, uma bênção, principalmente depois dos 40 anos. Melhora também o sistema cardiovascular." E valoriza, sobretudo, a sensação de liberdade proporcionada pela prática: "a pessoa volta a ser criança, porque a bicicleta também é um brinquedo. Você dá risada e relaxa." ROTEIROS E ENCONTROS O Clube de Cicloturismo constatou, por meio de pesquisa, que as mulheres ainda são minoria nesse ramo: representam cerca de 15% do total de cicloturistas. Para 39% dos entrevistados, o orçamento previsto para uma cicloviagem fica na faixa de R$ 30,00 a R$ 50,00 por dia; e, para 31%, custa entre R$ 50,00 e 100,00. Já a hospedagem preferida são as pousadas e hotéis, opção de 46%, seguido do camping (16%) e albergues (11%). Curiosamente, foi uma mulher que fundou o clube, a paulistana Eliana Britto Garcia, bióloga de 41 anos. Acabou abrindo também uma fábrica de acessórios para cicloturismo e, há seis anos, mudou-se da capital para Cristais Paulista, cidadela próxima a Franca, no interior paulista. "Aqui consigo usar a bike como meio de transporte, em São Paulo estava difícil." Pioneira na área, montou um núcleo de ciclistas já nos tempos em que cursava a faculdade. Fez sua primeira travessia com bike em 1988, do Rio de Janeiro a Santos. Decretada a paixão, não parou mais. "Pensei que fosse curtir apenas as paisagens, mas adorei os contatos humanos." Há mais de 20 anos, Eliana faz pelo menos uma viagem anual de bicicleta. Costuma seguir roteiros de 500 a 1.000 quilômetros. A maior travessia foi do sul do Chile, em Conception, até São Paulo. "De bike, você vive mais o lugar, participa da paisagem, repara nos detalhes, sente a temperatura, para e conversa com as pessoas." Fundou o Clube de Cicloturismo em 2001, depois que percebeu o interesse causado por uma exposição de fotos de uma viagem ao redor do Lago Titicaca, na fronteira do Peru com a Bolívia. Com o seu marido, o engenheiro elétrico Rodrigo Telles, criou o site e passou a receber mensagens de todo o Brasil. Hoje, o clube tem dez mil cadastrados e 800 pessoas na lista de discussões. "O grande objetivo é divulgar o cicloturismo e mostrar as suas possibilidades." Entre as proezas, está o circuito de cicloturismo que o casal mapeou no chamado Vale Europeu, em Santa Catarina - entre as fazendas da região, de forte influência alemã e italiana. "Estamos formatando outros roteiros porque nem todos gostam de ficar pesquisando estradas", conta Eliana. O clube promove um encontro anual, com palestras e curso básico sobre mecânica de bike, e uma pedalada conjunta. "Está crescendo o número de ciclistas mulheres. Sempre incentivamos os homens a levarem as namoradas." Há vários estilos de cicloturismo: trilhas de bike, ou seja, passeios de um dia, ou longas travessias. É imprescindível usar uma bermuda ou calça adequada, capacete, óculos e luva. Os alforjes - bolsas usadas como bagagem, que são acopladas à própria bike - devem ir apenas com o necessário. O bom condicionamento físico é outro requisito: o ideal é iniciar um treinamento com baixa quilometragem, aumentando à medida em que vai se adquirindo maior preparo. TODAS AS IDADES Luísa Pereira Santos, de 23 anos, que trabalha vendendo camisetas, pedala há seis anos em São Paulo. Usa a bike como meio de transporte. "Sinto-me independente. Além de tudo, é econômico", justifica. Fez sua primeira viagem de bicicleta há quatro anos: 160 km de São Paulo a Guararema. Confiante, começou a usar o veículo para ir até o litoral sul e ao seu sítio em Juquitiba - andando pelo acostamento, na rodovia Régis Bittencourt, e percorrendo depois uma estradinha de terra. Já está tão acostumada com o trajeto que encara a estrada até sozinha. Já fez 10 travessias, a maioria em dupla. Na última vez, foi de São Paulo a Salvador, com 25 quilos de bagagem, parando e acampando no caminho, e pegando algumas caronas. "É uma aventura mesmo. Descobrimos caminhos que nem imaginávamos." Entende um pouco de mecânica. "É preciso levar algumas chaves e uma câmara reserva para trocar o pneu, se furar." A bancária Vilma Moraes Batista da Silva, de 51 anos, é a única mulher no seu trabalho que vai até lá de bike, diariamente. Pedala 6 km da Vila Mariana até o centro. A obrigatoriedade do traje social no expediente não é empecilho: leva o tailleur na mochila e troca-se no vestiário. Casada, com três filhos e quatro netos, descobriu os encantos da bicicleta aos 27 anos, quando começou a trabalhar. Morava na pequena cidade de Iporã, no Paraná. "Comprei minha primeira Ceci Rosa com o meu salário", lembra ela, que dá bikes para todos os netos que têm idade suficiente.Quando se mudou para São Paulo, começou a frequentar as reuniões mensais do Clube de Cicloturismo, no Sesc Ipiranga, e do Clube do Pedal (www.clubedopedal.com.br), que promove viagens mensais. "Comecei a conviver com pessoas que compartilham das mesmas ideias. São saudáveis e apreciam a natureza", conta. Além disso, convenceu a filha Meliane, designer gráfica de 29 anos, a acompanhá-la nas reuniões. "Todos pensam que é ela quem me leva, mas é o contrário", diverte-se Vilma, que já fez passeios de um dia para destinos como Campos do Jordão. "É legal ver a paisagem, sentir o ar puro." Ainda não conseguiu fazer uma grande cicloviagem, por falta de tempo: mas o último convite para uma travessia entre São Vicente e Camboriú feito para a mãe foi aceito pela filha Meliane. PANFLETAGEM A bióloga e professora de alemão Katherine Foehringer, paulistana de 29 anos, adotou a bike como meio de transporte desde os tempos da faculdade. Vai para todo canto, a qualquer horário, usando iluminação, faixas refletivas no corpo, capacete e luva. "Meu irmão costuma dizer que pareço uma árvore de Natal", brinca.Já saiu para pedalar com a maioria dos grupos de bikers de São Paulo e costuma frequentar os encontros mensais do Bicicleta - movimento que nasceu na Califórnia e busca conscientizar os motoristas sobre o respeito aos ciclistas. Os integrantes reúnem-se toda última sexta-feira do mês, na região da Rua da Consolação com a Avenida Paulista, a chamada Praça dos Ciclistas. Katherine tem por hábito pedalar levando os panfletos do movimento, para distribuí-los. "Quando algum carro me fecha, ao invés de xingar, dou um panfleto", diverte-se. Foi no ano passado que ela descobriu o cicloturismo. Pesquisou na internet, inscreveu-se em sites específicos e começou a receber notícias. Mesmo sem conhecer ninguém, apareceu no grupo dos Moonbikers (www.moonbikers.com) para fazer uma trilha em Paranapiacaba. "Foi diferente pedalar na terra, com pedras soltas, subidas e descidas. Não me cansei nos 40 km, mas quase caí várias vezes." Com outro grupo, o Clube dos Amigos da Bike (CAB), Katherine fez um passeio pela Ilha Comprida (SP). Levou duas amigas e conheceu um casal que se tornaria companhia constante em suas jornadas futuras. "De bike, você percebe o mundo de uma forma mais sensível, sente os cheiros. E acaba desbravando novos caminhos, há locais onde não dá para ir de carro", comenta. Já está planejando a próxima viagem: quer pedalar pelo circuito dos Alpes, na Suíça, no próximo verão europeu. "Já pesquisei as rotas, é tudo mais simples. Há uma faixa para ciclistas e muito respeito."