Como Leonard salvou o planeta

Fernando Reinach* - O Estado de S.Paulo

No dia 11 de novembro, morreu Samuel Leonard, cientista que nos forneceu uma das armas mais poderosas para salvar o planeta. Malthus foi primeiro a compreender que os animais têm necessidade compulsiva de procriar, o que resulta em crescimento exponencial do número de indivíduos, só contido por doenças, predadores ou falta de alimento. No caso dos humanos, esse instinto veio junto com um cérebro sofisticado que nos permite construir as motosserras que desmatam a Amazônia, as brocas que buscam petróleo no fundo do mar e os carros que liberam CO2. A combinação da tecnologia com nossa compulsão reprodutiva fez com que a população humana crescesse de maneira exponencial até 1950. Tal crescimento teria continuado se não fossem as tecnologias de controle da natalidade. Com elas, pudemos deixar livre nosso instinto sexual e ao mesmo tempo controlar nossa população - foi a "revolução sexual". A ONU acredita que por volta de 2050 nossa população se estabilizará. Leonard foi o cientista que descobriu os hormônios que controlam o ciclo reprodutivo dos mamíferos e demonstrou que era possível usá-los para controlar a reprodução. Foi o avô da pílula anticoncepcional. Em 1930, ainda estudante de pós-graduação, descobriu os hormônios que são produzidos pela pituitária, o hormônio folículo estimulante (FSH, que induz a produção de óvulos de testosterona) e o hormônio luteinizante (LH, que ajuda a amadurecer os folículos e provoca a liberação dos óvulos). Eles são usados nos tratamentos de infertilidade e na produção de óvulos para fecundação in vitro. Os milhares de bebês de proveta podem agradecer a Leonard. Ainda em 1930, ele demonstrou que era possível inibir a ovulação de coelhos injetando estrógeno. Foi o primeiro experimento que culminou com o desenvolvimento da pílula anticoncepcional na década de 50. Nesse caso, quem deve agradecer a Leonard são todas as famílias que agora podem planejar o número de filhos e garantir seu sustento e educação. O planeta agradece pela redução do número de seres humanos capazes de consumir recursos naturais e as espécies animais e vegetais agradecem por terem sua extinção retardada pela diminuição do ritmo de crescimento dos predadores humanos. Em 1939, foi o primeiro a demonstrar que os hormônios sexuais controlam as características sexuais secundárias. Ele injetou testosterona em canários fêmeas e elas passaram a cantar tão bem quanto os machos. Foi o início das tecnologias que permitem aos atletas se doparem. Agradecem os laboratórios que ganham a vida testando urina de atletas. Em meio à controvérsia da introdução da pílula anticoncepcional, o comitê do Nobel não teve coragem de dar o prêmio a Leonard, mas antes de morrer, aos 101 anos, ele acompanhou a comercialização de todas as tecnologias derivadas de suas descobertas. Muitas vezes reclamamos do tempo necessário para uma descoberta científica se transformar em tecnologia, mas quando lembramos que fazem 70 anos que Leonard descobriu os hormônios da pituitária, é fácil entender como uma descoberta científica pode mudar o destino da humanidade em menos de um século. * Biólogo (fernando@reinach.com)