Como alimentar a humanidade no século 21

Fernando Reinach* - O Estado de S.Paulo

Quando amanhece, existe uma única preocupação na ''mente'' dos seres vivos: obter alimento para sobreviver mais um dia. Os insetos devoram as folhas e os pássaros saem à procura de insetos.A exceção é o Homo sapiens. Nossa espécie aprendeu a produzir comida com tal eficiência que a cada ano diminui o número de pessoas dedicadas a essa tarefa. Desde que descobrimos a agricultura, nossa população explodiu.A maioria de nós não participa da produção de alimentos e desconhece quão frágil é o sistema. Basta um desequilíbrio e a quantidade de alimentos diminui, espalhando a fome. Nessa hora, vale recordar os dilemas envolvidos na produção de alimentos.Direta ou indiretamente, quase tudo o que comemos se origina na agricultura. Podemos comer o milho ou a vaca que comeu o milho, mas a cada boca humana, corresponde um lote imaginário de terra cultivada. É lá que cresce sua alface e pasta a vaca que produz o leite que você bebe. Imagine um lote para cada habitante do planeta. Entre 1900 e 1950, a população humana cresceu a uma taxa correspondente a 10 milhões de pessoas por ano. Entre 1990 e o ano 2000, essa taxa subiu para 100 milhões de novas bocas por ano. Hoje somos 6 bilhões de pessoas e a população cresce mais lentamente, mas mesmo assim, a cada ano, nos próximos 25 anos, teremos que aumentar a produção de alimentos para acomodar 90 milhões de bocas. Some a esse desafio a tarefa de acabar com os 500 milhões de famintos.Para alimentar esse número crescente de pessoas, só há duas possibilidades. A primeira é aumentar a área dedicada à agricultura, criando um novo lote para cada ser humano que nasce. A segunda consiste em diminuir o tamanho do lote necessário para alimentar cada pessoa, aumentando a quantidade de alimento produzido em cada metro quadrado ou eliminando da dieta alimentos que exijam áreas maiores.REVOLUÇÃO VERDEA solução praticada pela humanidade entre 1950 e 2000 foi o aumento da produtividade. Naquele período, a produção de alimentos foi multiplicada por três, enquanto a área plantada aumentou em 30%. Imagine o que teria acontecido com as florestas se a produção de alimentos tivesse se expandido sem a introdução de novas tecnologias, somente aumentando a área plantada.O desafio para as próximas décadas é semelhante, mas agora a agricultura enfrenta resistências que não existiam no passado. Parte da população dos países desenvolvidos (muito bem alimentada) é ferozmente contra o aumento da área ocupada pela produção de alimentos e a conseqüente destruição dos ecossistemas. Ao mesmo tempo, há uma reação contra a introdução de novas tecnologias e um desejo de voltar a métodos menos intensivos de produção.O que as pessoas têm dificuldade em aceitar é que esses desejos são incompatíveis com o aumento da quantidade de alimentos. A realidade é que só existem três possibilidades: aumentar a área agrícola, aumentar a produtividade ou torcer para que uma guerra ou epidemia diminua a população do planeta. Teremos de fazer nossa escolha.*Biólogo - fernando@reinach.comMais Informações em: Gordon Conway, Produção de Alimentos no Século 21. Ed. Estação Liberdade, 2003.