Colóquio foi polêmico e evitou as mitificações

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo

Especialistas alertaram para ?equívocos interpretativos?

Pode uma obra clássica como Os Sertões, de Euclides da Cunha (1866-1909), talvez a mais estudada pelos acadêmicos brasileiros, ainda suscitar dúvidas sobre um possível equívoco de leitura das teses sociológicas e antropológicas que ajudaram seu autor na tarefa de entender o conflito de Canudos? Segundo o professor titular de literatura da PUC-RJ, Luiz Costa Lima, a resposta é positiva. Criticando Euclides por interpretar mal a obra do sociólogo polonês Ludwig Gumplowicz (1838-1909), ele fez praticamente um convite à revisão da segunda parte de Os Sertões (O Homem) ao participar da primeira mesa do colóquio Euclides da Cunha 360º - A Obra e o Legado de Um Intérprete do Brasil, promovido pelo Estado. O colóquio começou, assim, sob o signo da polêmica, o que pode ser bom para futuros acadêmicos interessados no legado de Os Sertões.Participante dessa mesa inaugural ao lado de Luiz Costa Lima e Walnice Nogueira Galvão, professora de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz ensaiou uma rápida resposta ao comentar a segunda parte de Os Sertões, que trata justamente do homem de Canudos, visto por Euclides como um produto da miscigenação. Sem comentar diretamente a possível leitura "equivocada" de Gumplowicz por Euclides, a professora do Departamento de Antropologia da USP lembrou que o autor "usou as ferramentas de sua época" para analisar o comportamento dos sertanejos de Canudos, que seguiam Antonio Conselheiro em sua messiânica luta contra o Exército republicano. Uma dessas ferramentas foi a extensa pesquisa que o inglês James Wells fez em 1870 sobre os apáticos e famintos sertanejos, capazes de trabalhar como mulas sem reclamar, envergonhando o indolente Wells com sua suposta superioridade racial. Mas Wells ficou fora do páreo. O que se discutiu mesmo foi a leitura de Gumplowicz, que Euclides julgava maior que Hobbes.O professor Costa Lima argumentou que o autor de Os Sertões, por desconhecer o alemão, leu a tradução francesa da obra maior de Gumplowicz, Der Rassenkampf (Luta de Raças), incorrendo no mesmo equívoco de regimes totalitários que subverteram mais tarde as ideias do sociólogo. Euclides buscaria uma resposta eugênica para a diversidade do sertanejo, quando Gumplowicz usou a luta biológica pela sobrevivência como uma correspondência analógica dos conflitos entre grupos sociais. A sujeição dos mais fracos pelos mais fortes seria, para ele, a fonte da organização política, "uma condição essencial para o crescimento social". Os nazistas distorceram essa teoria, forjando o conceito de inferioridade racial. Gumplowicz, que era judeu, não teve o desgosto de viver para ver isso. Matou-se em 1909, ano em que também morreu Euclides.Obviamente, o autor de Os Sertões, que foi para Canudos com ideias eugênicas na cabeça e voltou transformado, após testemunhar a barbárie do Exército republicano, não rotula nem discrimina o sertanejo. No entanto, Luiz Costa Lima lembrou no colóquio que o determinismo de Euclides eclipsou seu entendimento das teses de Gumplowicz, fazendo-o sucumbir ao darwinismo social. O professor criticou os acadêmicos que evitam essa incômoda miopia que levou tantos a defender uma eugenia positiva e temer a degeneração biológica com a miscigenação. E citou nominalmente o sociólogo e antropólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987) como disseminador de ideias racistas. "Não se pode esquecer que ele foi antissemita", justificou.Pouco antes, a professora Lilia Moritz Schwarcz, falando a respeito das ideias eugênicas em circulação na época de Euclides (o termo eugenia foi criado em 1883), fez exibir um diapositivo que reproduzia uma tela do pintor espanhol, radicado no Brasil, Modesto Brocos (1852- 1936), pintada em 1895, A Redenção de Cã. Nela, ao centro, uma mãe mestiça segura o filho quase branco, ao lado da avó negra, que parece feliz pela cor do neto. O pai, europeu, olha o bebê de soslaio com uma atitude superior. A mestiçagem, então, era vista como a causa de todos os males do Brasil. "Conselheiro é visto como a condensação desse ?mal gravíssimo?, um homem na fronteira da loucura, fruto de uma tara hereditária", disse a professora, comentando a descrição da gênese do jagunço e do líder carismático.A professora Walnice Nogueira Galvão, ao fazer a introdução da obra para a plateia do colóquio, cuja primeira mesa foi mediada pelo editor do Caderno Cultura, Rinaldo Gama, definiu a parte conclusiva de Os Sertões (A Luta) como a de "maior ambição literária", sem esquecer o esquema determinista que fez da segunda, O Homem, um minitratado sobre miscigenação e teorias raciais. Segundo ela, Euclides erigiu um monumento aos mártires de Canudos imolados em nome da modernização. E classificou a atuação da imprensa da época em relação à guerra de Canudos "vergonhosa", sublinhando o papel de Euclides, convidado pelo Estado a cobrir o conflito, na recuperação da verdade histórica. "Ele foi acreditando tratar-se de uma conspiração monarquista e voltou transformado." Para o bem da história e da literatura.