Civilidade: gentileza atrai gentileza

Eduardo Diório, do Jornal da Tarde - O Estado de S.Paulo

A arte das boas maneiras parece que foi esquecida, mas ainda é possível praticar a delicadeza

"Nunca vi nem nunca ouvi dizer, em toda a minha vida, sobre alguém que não gostasse de ser tratado com gentileza. Também nunca soube de alguém que tenha se ofendido ao ser considerado gentil". O depoimento da escritora Rosana Braga - que recentemente lançou o livro O Poder da Gentileza - é a prova de que uma atitude de bom grado não faz mal ao ser humano: nem para quem recebe, muito menos para quem oferece tal gesto.Em um mundo em que as pessoas tendem a ser solitárias e egoístas, onde casamentos são marcados pela internet, em que ninguém olha para o lado no ônibus e nem dá bom dia ao vizinho, o corpo e a mente, garantem os especialistas, sofrem com a falta de relações interpessoais. Praticar atitudes gentis não requer habilidades, muito menos tempo e dinheiro. Basta ter boa vontade e desprendimento. No século 21, gentileza, tudo indica, tornou-se sinônimo de tolice. Parece que o tempo da delicadeza se foi."Embora insistamos em acreditar que a essência de nossa busca deve ser por coisas, no fundo, nada mais desejamos além de felicidade, amor e prazer, que não estão nas coisas e sim na relação que mantemos com as pessoas", alerta Rosana. Ela garante que é somente isso que pode realmente fazer com as pessoas se sintam "satisfeitas, preenchidas e em paz".De acordo com Maura de Albanesi, psicoterapeuta, pós-graduada em psicoterapia corporal e mestranda em psicologia e religião pela PUC, para se travar um bom relacionamento e um convívio agradável e saudável - ou seja, ser gentil - é preciso deixar de lado os preconceitos. "As pessoas costumam tratar os outros a partir do seu referencial de valores e princípios, de certo e errado, de justiça ou injustiça, e assim por diante. Elas acreditam que a janela de seus olhos retrata toda a verdade em si e do mundo."O que muita gente esquece é que cada um é peça fundamental no universo, sem a qual ele jamais ficaria completo. Como uma única peça não forma o desenho, quando se é sozinho a vida fica sem significado. Esse é o princípio básico de convencimento (se é que é preciso convencer alguém a ser educado, elegante, gentil) para transformar as pessoas mais generosas entre si. "Devemos pensar primeiramente no outro. Não porque nos sentiremos bem, mas pelo simples fato de que nada somos sem os outros. O mundo é um imenso quebra-cabeça", avisa a escritora.Como praticarHá quem diga que a palavra gentileza significa educação e que algumas atitudes, como abrir a porta do carro, pedir desculpas e licença, além de agradecer por um serviço prestado, garantam o título de gentil. É claro que isso não deixa de ser verdade. Mas será que essas não são regras óbvias de um comportamento social natural? Por algum motivo, não são todas as pessoas que tiveram o oportunidade de aprender determinadas regras. Porém, outras - que aprenderam quando crianças - fazem questão de seguir tais comportamentos."Ser gentil não se trata primordialmente de se ter bons pensamentos, mas sim de praticar boas ações. Gentileza pede que usemos ao máximo a nossa capacidade de raciocínio e inteligência ética. Sem discernimento, fica difícil ser gentil", afirma o médico cancerologista sueco Stefan Einhorn, em seu livro A Arte de Ser Gentil. Na prática, tentar se colocar no lugar do outro, escutar mais e falar menos, ser paciente, justo e solidário, são atitudes simples, porém importantes para torna-se uma pessoa mais útil perante o próximo.E foi pensando justamente nessas atitudes, que a promotora de eventos Márcia Costa percebeu que precisava fazer algo para revolucionar a vida dela. "Refletindo sobre o novo ano, pensei em como vivê-lo de forma menos estressada, com comportamentos que poderiam deixar o meu dia-a-dia mais agradável e até momentos de tensão mais suaves", lembra. Foi aí que notou que ‘saber ouvir’ era uma prática que estava deixando de lado."Sem paciência, estamos sempre interferindo quando alguém tenta falar alguma coisa e isso é muito desagradável." Outro ponto em que Márcia acredita que precisa ser melhorado é a falta do famoso bom dia e seus derivados. "Vejo pessoas entrando no elevador sem ao menos esboçar a possibilidade de um cumprimento. Gentileza atrai gentileza."No trabalhoNo escritório da produtora de eventos não faltam atitudes gentis entre os seus funcionários. Para ela (que implantou a lei da civilidade no local), quem é camarada com os outros colegas ganha pontos na avaliação de fim de ano. "Acabamos obtendo muito mais sucesso nas nossas conquistas profissionais com palavras de gentileza", completa Márcia, que, além disso, confessa que as "pessoas que têm o cargo mais simples, costumam ser mais educadas do que as que estão no poder.""Todo fim de ano fazemos uma avaliação no nosso quadro de funcionários e toda vez é a mesma coisa: eles têm medo de serem demitidos por falta de qualificação. Eles não percebem que não é isso que buscamos. Queremos que sejam éticos e parceiros entre si. Qualificação dá para dar um jeito, por meio de cursos", revela Marcelo Maia, diretor de recursos humanos de uma multinacional.Segundo Alberto Ogata, presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), estimular a amizade dentro de uma empresa pode ser uma forma de melhorar o resultado das equipes. "Uma maior integração entre os funcionários traz à organização um clima prazeroso e descontraído que facilita o convívio, propicia o engajamento da equipe e, conseqüentemente, aumenta a produtividade." No entanto, Ogata explica que a amizade não deve ser confundida com uma forma de benefício profissional. "O ideal é usar o bom senso. Um clima organizacional favorável pode ser alcançado com simples atitudes de gentileza entre os companheiros de trabalho, inclusive de níveis hierárquicos diferentes, sem necessariamente incluir laços de amizade. Atitudes gentis devem permear o trato, sem distinção, em toda a organização", completa o presidente.Com o objetivo de espalhar a ainda mais a idéia de que vale a pena ser gentil, tanto no trabalho quanto nas ruas, recentemente, o canal pago GNT e a Rede Globo lançaram campanhas distintas que reforçam a importância da civilidade. A idéia é popularizar a mensagem que parece ser tão básica, mas que está guardada no subconsciente de alguns telespectadores.