Cirurgia de epilepsia cada vez mais cedo

Ricardo Westin - O Estado de S.Paulo

Idade média dos operados caiu de 32 para 19 anos na última década, segundo levantamento em São Paulo

São cada vez mais jovens as pessoas que se submetem à cirurgia de epilepsia. Em 1996, a idade média dos pacientes operados era de 32 anos. Em 2006, a média estava em 19 anos. Os médicos dizem que a tendência é que a cirurgia se torne pediátrica. O levantamento foi feito pela Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo com base no prontuário dos 1,3 mil pacientes que foram operados nesses dez anos no Hospital Estadual Brigadeiro, na capital paulista, que atende pelo sistema público de saúde e é referência nacional nesse tipo de neurocirurgia. Atualmente, 40% dos pacientes operados lá são crianças de até 12 anos. O hospital espera que esse índice chegue a 70% no ano que vem. Considerada no passado um transtorno mental, uma moléstia contagiosa e até mesmo um mal espiritual, a epilepsia é, na realidade, uma doença neurológica caracterizada pela estimulação exagerada e descontrolada de alguns neurônios no cérebro. Os sintomas mais conhecidos são as convulsões. Dependendo da região afetada do cérebro, o doente pode ter, por alguns momentos, problemas de visão, audição e olfato e paralisia de parte do corpo. A lesão no cérebro que leva à epilepsia pode ter origem num acidente físico, num tumor, numa infecção, no parasita cisticerco, num parto malfeito ou numa meningite. Embora com menor freqüência, pode ser genética. A doença pode aparecer em qualquer idade. "Quanto mais cedo for a cirurgia, melhor será para o paciente", afirma Arthur Cukiert, chefe do Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital Brigadeiro. Segundo ele, a redução da faixa etária deve ser comemorada porque, dessa forma, o doente fica menos tempo sujeito a traumas psicológicos (ele tende a evitar o contato social por causa do medo de ter convulsões em público), neurológicos (como a perda de memória em razão das alterações bruscas e violentas no sistema nervoso) e até físicos (a queda numa convulsão pode deixar braços e dentes quebrados). Entre as causas para a redução da idade dos pacientes operados, a principal é o avanço tecnológico na medicina. Atualmente, os aparelhos de ressonância são capazes de localizar com enorme precisão o local afetado no cérebro, o que é essencial para as cirurgias. "Antes, as neuroimagens obtidas eram claras apenas nos adultos. Hoje, com a melhora das técnicas, conseguimos delimitar a área afetada nas crianças", afirma o neurologista e neurofisiologista Lauro Wichert Ana, do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Segundo a Liga Brasileira de Epilepsia, estima-se que 2% da população dos países em desenvolvimento seja epiléptica. De acordo com esse cálculo, existem cerca de 3,6 milhões de brasileiros com a doença. A grande maioria dos pacientes, 80%, consegue controlar e até curar a epilepsia com remédios. Nos demais 20%, a alternativa são as operações. No Brasil, portanto, mais de 700 mil pessoas teriam indicação para a cirurgia. Existem diferentes técnicas cirúrgicas, dependendo da situação do paciente, como a retirada da parte danificada e o corte dos neurônios hiperativos. Em alguns casos, são implantados eletrodos no cérebro.