''''Ciência básica e aplicada não são excludentes, se interpenetram''''

Cristina Amorim - O Estado de S.Paulo

Novo presidente da Fapesp afirma que a fundação vai buscar estimular a integração entre os campos

Celso Lafer: presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de SP O novo presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o jurista Celso Lafer, assumiu o cargo há um mês evocando Louis Pasteur. Em seu discurso de posse, citou o cientista francês ao dizer que "não há ciência aplicada, existem sim aplicações da ciência". Além disso, assim como seu diretor-científico, o ex-reitor da Unicamp Carlos Henrique de Brito Cruz, ele se fundamenta no quadrante de Pasteur, modelo em que a ciência básica e a aplicada caminham juntas. "Há uma lógica de complementaridade entre elas", diz Lafer. Confira entrevista dada ao Estado. A ciência aplicada será agora priorizada na Fapesp em detrimento da ciência básica? A dicotomia ciência básica e aplicada não é excludente, elas se interpenetram. Há uma lógica de complementaridade entre elas. Vou dar um exemplo prático. Um dos nossos projetos importantes é o Biota, que faz o inventário e a caracterização da biodiversidade no Estado de São Paulo. Ela tem uma grande dimensão de pesquisa básica. O resultado terá aplicação prática a preservação da biodiversidade no Estado de São Paulo, e servirá como um instrumento de gestão ambiental para a Secretaria do Meio Ambiente - inclusive para problemas muito práticos como o zoneamento agrícola à luz dessa dimensão ambiental. Na prática, como isso vai funcionar dentro do corpo de análise de projetos da Fapesp? Haverá um item a mais a ser avaliado? Uma parte grande de nossas atividades são fruto da solicitação de pesquisadores ou grupos. Isso vai continuar. Também tomaremos certas iniciativas, como na área de ambiente, sobretudo na de mudanças climáticas. Achamos que é um assunto importante, e que envolve essa complementaridade. Em qual área a pesquisa básica e aplicada são melhor integradas? Talvez astronomia seja mais difícil - mas naturalmente essa parte espacial, como a construção de satélite, essa coisa toda, é um tema importante para o Brasil. O capítulo matriz energética é um tema fundamental, porque o da mudança climática passa pela energia limpa e renovável. O capítulo etanol é onde essa dimensão é relevante, não apenas para discutir programas de energia, tipo de muda de cana, o que você faz com o equilíbrio térmico das usinas, etc. Há outros aspectos envolvidos, como social e zoneamento. O capítulo Embraer é outro, o qual acompanhei porque tratei do caso Embraer/Bombardier quando fui embaixador do Brasil junto à OMC. Para um país como o Brasil, é importante que em sua pauta de exportações haja, além de produtos agrícolas com uso de tecnologia, produtos industriais e aquilo que é mais de ponta. O orçamento estadual é suficiente para apoiar bem a pesquisa básica e aplicada? A Constituição Estadual destina 1% da receita tributária para a aplicação em desenvolvimento científico e tecnológico. Há três grandes universidades estaduais que têm uma parcela significativa do ICMS, em torno de 9%, e mais uma série de institutos aplicando em São Paulo, como o Agronômico e o IPT. É por isso, aliás, que São Paulo tem uma vantagem comparativa importante. A ciência está a serviço do desenvolvimento? A ciência deve estar a serviço do desenvolvimento. Nós procuramos contribuir nesse sentido. O conceito de desenvolvimento é complexo. É uma expressão da idéia de progresso, conceito do século 18, do Iluminismo. Não é a leitura dos pensadores da condição pós-moderna. Mas é a minha leitura. Eu acredito na possibilidade, na capacidade da razão ampliar e melhorar as condições de vida.