Cidade usa modelo da Austrália

- O Estado de S.Paulo

Prédios públicos são alvo de obra; ONG multiplica bons projetos pelo mundo

São Paulo está se inspirando em Melbourne, na Austrália, para reduzir o gasto de energia e a emissão dos gases responsáveis pelo efeito estufa nos edifícios públicos. Boas práticas que podem servir de modelo para o mundo como esta são reunidas e multiplicadas pela organização não governamental C40. "Como não podemos lidar com todas as cidades ao mesmo tempo, escolhemos 40 das maiores para liderarem o processo em suas regiões", diz o diretor da ONG, Simon Reddy. A capital paulista vai receber ajuda da organização para implementar eficiência energética em vários edifícios da Prefeitura. A prática é conhecida como retrofit e será desenvolvida em parceria com a Sabesp e a Eletropaulo. Segundo o secretário municipal de Relações Exteriores, Flávio Goldman, a quantidade de prédios que vai passar pelo processo dependerá dos fundos levantados com as empresas. Mas o decreto prevendo as reformas deve sair em dez dias. Além de São Paulo, 15 cidades do exterior adotarão a iniciativa. Práticas sustentáveis, como eficiência energética, tornaram o complexo de escritórios Council House 2, em Melbourne, um modelo para o mundo todo. O prédio reduziu as emissões de CO2 em 87%; o consumo de eletricidade em 82%; de gás em 87%; e de água em 72%. Para aproveitar melhor a energia solar, usa painéis fotovoltaicos (acompanham a trajetória do sol durante o dia). A refrigeração e o aquecimento são feitos com energia solar; a água da chuva é recolhida e reutilizada. O investimento em sustentabilidade foi de U$ 11,3 milhões, que serão pagos em uma década pela própria economia proporcionada.Outra idéia interessante para o planeta apontada pelo C40 é reduzir o desperdício, transformando lixo em fonte de energia e renda. Os 10,2 milhões de habitantes de Daca, capital de Bangladesh, produzem 4 mil toneladas de lixo ao dia. A cidade desenvolveu um projeto para substituir a queima de resíduos orgânicos sólidos pela compostagem (produção de adubo), reduzindo as emissões em 18 mil t. O urbanista Jorge Wilheim, secretário-geral da Conferência Habitat 2, da ONU, porém, faz uma ressalva à adoção da medida em São Paulo: "Em metrópoles industrializadas, o mais importante é a reciclagem, porque o lixo é mais urbano." Outro problema na mira do C40 é o transporte. Para minimizar os danos, valem desde o sistema de ciclovias de Copenhague, na Suíça, ao pedágio urbano de Londres. Em quatro anos, a capital inglesa reduziu emissões em 16% ao taxar a circulação de carros no centro da cidade. Os motoristas de carros elétricos ou que usam combustíveis alternativos são isentos. Para 2008, a iniciativa deve ficar ainda mais verde. "Queremos que os veículos mais poluentes paguem um valor maior", diz o gerente do sistema de pedágio, Graeme Craig.Embora eficaz em Londres e Estocolmo, o pedágio só funciona se a rede de transportes for capaz de atender a demanda. Para Wilheim, o pedágio em São Paulo é impossível, porque os congestionamentos se formam nas Marginais.Outra maneira de aumentar o fluxo são os corredores de ônibus, como fez Bogotá. Após reduzir em 32% o tempo das viagens por meio do Transmilenio, a cidade integrou o sistema com a CicloRuta, uma das maiores ciclovias do mundo, com 303 km. A construção levou em conta a topografia da cidade, com bicicletários integrados aos terminais de ônibus. "Mobilidade é um sistema em que os meios de transporte se fundem diz Wilheim. Para isso, a continuidade das obras nos governos seguintes é fundamental, segundo ele. "A falta de percepção da sociedade faz com que o Estado se veja livre da exigência social", diz o presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, Carlos Bocuhy. "Para implementar políticas públicas, não basta conscientização. É preciso criar estímulos por meio de legislação ou incentivos econômicos. Adesão voluntária é difícil."