Casamentos de outrora

Mary Del Priore* - O Estado de S.Paulo

Tradicionalmente, maio é o mês das noivas. E como era isso no passado? Entre os séculos 16 e 18, nossos avós também tinham seu ritmo de vida marcado pelas grandes constantes da condição humana: o nascimento, o casamento e a morte. Viver consistia em passar por essas etapas e sequências cerimoniais, que tornavam significativo o universo individual. Para tal, havia rituais cuidadosamente seguidos por todos. Vejamos os que cercavam o matrimônio.

Uma das razões que complicavam a realização dos casamentos era a elevada despesa da papelada. Sobretudo quando os "papéis" tinham que vir do Reino de Portugal. Nas fazendas e engenhos de açúcar, eram comuns as festas para casamentos e batizados coletivos de escravos. A tradição recomendava que se chamasse o sacerdote e que, num só dia, se realizasse simultaneamente ambas as cerimônias, às quais seguia-se uma "função": festa com farta distribuição de rapadura e aguardente para os escravos, que se entregavam aos alegres batuques, atabaques e repeniques de violas.

Práticas tinham lugar na intimidade das jovens casadoiras, que procuravam garantir o casamento. Santo Antônio e São Gonçalo estavam presentes em centenas de adivinhações, para que o devoto assegurasse seu futuro amoroso: da clara de ovo na bacia d?água, da cacimba em que devia aparecer o rosto do amado, das agulhas, que metidas em um copo não podiam se separar. Quando não cumpriam as promessas, as imagens religiosas ficavam de castigo, penduradas dentro de um poço. São João também era considerado santo casamenteiro, associando-se seu culto a cantigas sensuais: "dai-me noivo, São João, sai-me noivo, dai-me noivo que quero me casar."