Capivara é avistada em pleno Pão de Açúcar

Alexandre Rodrigues, RIO - O Estado de S.Paulo

Ainda não se sabe como o roedor chegou ao local

Montanhistas que trabalham em mutirão na recuperação da vegetação nativa do entorno do Pão de Açúcar se surpreenderam. Após dois meses intrigados com vestígios de um animal de grande porte no Grotão do Pão de Açúcar, área de difícil acesso na base da face da montanha voltada para o mar aberto, foi descoberta uma capivara de cerca de 40 quilos. Mas uma interrogação permanece: como o roedor, típico de margens de rio e lagoas, chegou ao local, cercado por dois paredões de rocha e pela água salgada do mar?O animal foi avistado pela primeira vez há 15 dias pelo bancário Sávio Teixeira, que dedica seus domingos ao reflorestamento do Grotão há seis anos. Ele se preparava para o encontro desde que passou a ver pegadas, palmas nativas rasgadas e fezes, que vinha fotografando sem ter certeza de que animal se tratava. "Nunca tinha visto nada parecido lá e fiquei intrigado. Os maiores animais dali são lagartos. Até que finalmente vi a enorme capivara cinza, bem alimentada, com 40 ou 50 quilos, se mexendo no mato. Tentei fotografar, mas ela fugiu, assustada", contou. "Fui criado no Pantanal, sei que não é um bicho perigoso, mas fiquei com medo. Nunca se sabe como pode reagir um animal acuado." Pelos sinais, Teixeira acha que a capivara está sozinha. Ele desconfia que o roedor tenha chegado ao Pão de Açúcar pela Baía de Guanabara, carregada pela enxurrada de alguma chuva forte da primavera.Mesmo assim, ela teria de ter escalado as pedras que separam a área verde do mar. O biólogo Ricardo Tadeu Santori, especialista em zoologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), diz que a hipótese é possível, mas improvável. "O Pão de Açúcar não está ligado à Floresta da Tijuca, mas tem vegetação. Alguém pode ter encontrado esse animal em outra região e levado para lá. Muitas pessoas e até bombeiros, policiais e militares tentam devolver animais à natureza sem qualquer critério." A principal preocupação dos montanhistas é a ausência de água doce na região. Eles acham que a capivara pode estar matando a sede em depósitos de água da chuva, com duração limitada. Alguns defendem buscar ajuda especializada para capturar e transferir o animal para uma reserva. Outros preferem instalar um bebedouro para o animal ficar lá. No começo, a capivara acabou ajudando no reflorestamento do local, onde só se chega de rapel, ao se alimentar dos brotos de capim colonião, uma praga combatida. Mas ela agora está comendo também as mudas nativas."Acho que ela pode provocar um desequilíbrio. A área é pequena, tem cerca de 10 mil m²", diz Teixeira. Para Santori, a captura e remoção do animal é a melhor opção: "Ela não tem muitas chances de sobreviver ali." O biólogo Mário Moscatelli, que liderou a revitalização da Lagoa Rodrigo de Freitas quando surgiu lá, em 2004, outra capivara, é contra. "Os ambientes naturais desses animais estão sendo detonados e eles estão se adaptando."