Cai faixa etária de jovem grávida

SIMONE IWASSO E FABIANE LEITE - O Estado de S.Paulo

Meninas pobres e negras apresentam as maiores taxas de fecundidade, aponta estudo de pesquisadora do IBGE

A faixa etária das jovens grávidas tem caído, na contramão do que ocorre com as mulheres adultas, que têm filhos cada vez mais tarde. Enquanto na década de 70 havia um crescimento do número de gravidez na faixa dos 18 e 19 anos, atualmente há incremento dos 16 para os 17 anos, segundo estudo recém-divulgado pela pesquisadora do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) Andréa Machado Barbosa, que será apresentado nesta semana no Encontro Nacional de Estudos Populacionais, em Caxambu (MG).Pesquisando os Censos das três últimas décadas e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) dos últimos anos, Andrea apontou que, além de ter caído a idade, aumentou a concentração de gravidez de adolescentes.A análise da pesquisadora do IBGE mostra também que diferenças raciais e socioeconômicas permanecem influenciando a fecundidade também entre as mais jovens.Em todos os Censos observados, há uma maior proporção de mães adolescentes entre pretas e pardas do que entre brancas - atualmente, entre os 6,4 milhões de jovens brancas, 12% são mães. Entre as pardas, o porcentual sobre para 16,9% e, entre as negras, para 17,3%.Além disso, foi entre as últimas duas que houve o maior aumento na proporção de mães antes dos 20 anos entre as décadas de 1980 e 2000.O mesmo acontece quando se faz o recorte pela renda per capita. A ocorrência da maternidade é mais alta entre as adolescentes com renda familiar per capita abaixo de um salário mínimo (hoje em R$ 415).Cerca de 21% das jovens oriundas de famílias com até meio salário mínimo per capita (R$ 207) já são mães, um universo de mais de 3 milhões de garotas. Entre meio salário e um salário mínimo, são 17,2% delas. E com mais de um salário mínimo, são 7,8%.São também as mais pobres que têm maior número de filhos: 6,2% das meninas com menos de um salário mínimo per capita já tinham dois filhos antes dos 20 anos.Em outras palavras, o que os números mostram é que as taxas de fecundidade das adolescentes brancas e com melhores condições socioeconômicas tende a cair com o passar dos anos, ao passo que a das jovens negras e pobres segue aumentando. São elas as que saem da escola mais cedo, engravidam mais jovens e em um número maior de vezes. Dados que têm por trás a história de meninas como Luana (nome fictício), de 15 anos, que na última quinta-feira olhava encantada para Luiz, 8 dias, seu filho.Nariz com nariz, bochecha contra bochecha, e um sorriso permanente no rosto, ela contava que a irmã a expulsou de casa quando revelou a gravidez e que o namorado não quis mais saber dela. E explicava, em seguida, no mesmo tom de voz, que sabia da existência de métodos para evitar filhos, mas nunca pensou sobre isso ao se apaixonar pelo "menino do bairro"."O avô materno vem visitar sempre, mas o resto da família, não" , explica a assistente social Marlene Novaes, de 47 anos, que nos últimos 16 tem acolhido no Amparo Maternal, serviço filantrópico para grávidas carentes na capital paulista, diferentes histórias de meninas que jamais puderam refletir sobre o significado de ter um filho. "É a última coisa em que elas pensam."Luana perdeu a mãe e morava de favor com uma das irmãs, que já tinha família e viu no novo bebê um risco financeiro. Com a criança, largou a 5ª série também. Ainda não se sabe qual será o destino da menina e da criança, pois o avô também não tem condições financeiras, contava Marlene, enquanto Luana, despreocupada, seguia a embalar Luiz. "Elas acreditam que sendo mães vão garantir uma união com o parceiro e vão melhorar de vida, além de ganharem alguém que vai gostar delas para sempre, suprindo suas carências. Não conseguem entender que é provável que aconteça justamente o contrário", afirma Maria Helena Vilella, do Instituto Kaplan, que em parceria com o governo estadual expandirá projeto contra a gravidez na adolescência do Vale do Ribeira, região mais pobre do Estado, para todas as escolas paulistas. Em três anos, a iniciativa reduziu de mais de 350 para menos de 30 o número de casos de gravidez nas 24 escolas da região.