Cabeça de homem

- O Estado de S.Paulo

Não lhes faltam mulheres, mas esses exemplares masculinos não conseguem encontrar a deusa dos sonhos

Os homens das fotos abaixo estão solteiros faz tempo, embora garantam que candidatas à vaga de namorada não faltam. Eles valorizam a liberdade, gostam de fazer o que lhes dá na telha sem precisarem dar satisfação a ninguém. Mas suas rotinas não têm nada de mirabolante: curtem ficar em casa de papo para o ar, ir a um museu para ver alguma exposição esquisita ou sentar-se em um boteco com os amigos para falar besteira. Abrem mão dessa vida, dizem, só se um dia encontrarem a "mulher ideal".

 

Enquanto essa figura feminina idealizada não cruza seus caminhos, vão tendo seus casinhos. Existem muitas mulheres que estão na mesma situação, ou seja, só abrem mão da solteirice se realmente valer a pena. O levantamento anual realizado pelo Ibope Mídia, o Target Group Index, mostra que os solteiros (ambos os sexos) representam 34% da população do estado paulista. Eles e elas estão em pé de igualdade: cada grupo representa exatos 50%. A faixa etária que concentra mais gente disponível é a de 18 a 24 anos (39%), seguida pela de 25 a 34 anos (33%). A maioria pertence às classes C (43%) e AB (39%).

 

Um levantamento feito pela agência de casamentos A2 Encontros, entre 300 homens cadastrados, de 30 a 45 anos, com renda superior a 4 mil reais, comprova que as mulheres não são mais detentoras da "tolerância zero e exigência máxima". Hoje, eles empatam com elas também nesse quesito.

 

Segundo registros da agência, em 2004, para cada 10 mulheres compatíveis com os perfis de clientes do sexo masculino, o candidato aceitava conhecer 4 perfis femininos selecionados. E as mulheres diziam "sim" para 8 dos 10 perfis masculinos indicados. Este ano, a aceitação de ambos os sexos caiu para 2, selando, assim, um empate.

 

Às vésperas do Dia dos Namorados (12 de junho), reunimos uma pequena amostra desses seres, com suas idiossincrasias e desejos (presentes ou futuros) de selar uma relação "especial". Vejam só as queixas e aspirações deles.

 

 

Igor Macedo

 

 

 

"Estou há um ano sem namorar, só experimentando relacionamentos. Gosto de curtir o primeiro mês, que é o mais interessante, por causa da novidade. O jogo da conquista é muito legal, mas perde a graça quando fica muito fácil. E sexo tem de monte. Como não quero compromisso, me afasto antes de a garota se apaixonar.

Não ajo como vilão. Mas sempre dou os sinais de que não quero nada sério. Não quero assumir namoro, porque pretendo passar um tempo fora do Brasil para fazer uma pós-graduação e pegar alguns trabalhos como modelo. É difícil uma mulher aceitar uma vida livre, topar cair na estrada. A maioria já chega pressionando para namorar e casar, e tenho pavor de casamento. Curto baladas."

 

27 anos, 1,88 m, 90 kg, modelo e estudante de Engenharia de Produção

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Paulo Castro

 

 

"Já passei pela fase da balada e da bagunça com a mulherada. Hoje detesto badalação. Sou canceriano e muito romântico, mas tem sido difícil encontrar alguém realmente legal. Desde os meus 15 anos, sonho em casar e ter filhos. Mas hoje não há muito espaço para o ritual da conquista, e as mulheres não se esforçam mais para manter o relacionamento. As relações viraram descartáveis.

No começo de uma possível relação, tudo é maravilhoso, depois vêm as cobranças, ciúmes. Não tenho paciência para isso. Como trabalho bastante, às vezes tudo o que quero é ficar em casa na paz. Tenho uma vida muito boa e, para abrir mão dela, o relacionamento tem de valer muito a pena."

 

37 anos, 1,89 m, 90 kg, publicitário, sócio de uma agência de publicidade e de dois bares, o Boteco Ferraz e o Bar Aurora

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Reginaldo Soares

 

 

"A minha última ‘jornada séria’ começou em agosto de 2009 e durou até março. Isso só aconteceu porque tentei algo diferente, e me relacionei pela primeira vez com uma mulher mais velha do que eu. A diferença era de cinco anos. E acho que esse é o caminho, porque encontrei a seriedade e maturidade que sempre desejei. Embora tenha muita mulher disponível, a maioria acaba atirando para tudo quanto é lado na ânsia de arrumar alguém, e acaba perdendo a credibilidade, ficando vulgar.

Só experimento esses tipos, porque não dá para levar um relacionamento adiante. Elas são chamadas de ‘mulher pantufa’: são boas para ficarem dentro de casa, mas não dá para levá-las para a rua, porque a gente passa vergonha. Sou bem família, não gosto de balada. Prefiro um bate-papo em barzinho, sair com a namorada e com os casais amigos. Mas todo domingo é sagrado ficar com meus dois filhos. Talvez por isso perca alguns pontos com as mulheres."

 

35 anos, 1,88 m, 94 kg, proprietário de uma pequena rede de lojas de acessórios automotivos. Tem dois filhos de dois relacionamentos passados

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gabriel Alexandre

 

 

"O fato de eu fazer o que quero, na hora que quero, sem ter de ficar dando satisfações para ninguém, é um dos principais motivos para continuar nessa vida de solteiro. Tenho um perfil bem diferente: sou vegetariano, estudo trompete e costumo tocar com amigos, gosto de artes e de relaxar assistindo a bons filmes. Baladas não me agradam, há muita gente vazia. Também curto almoçar com a família num domingo. Por causa do meu estilo de vida, é cada vez mais difícil achar uma mulher.

Toda vez que saio com alguém, acontece a ‘síndrome do terceiro encontro’: a primeira vez é bem divertida; a segunda, menos legal; quando chega a terceira, parece que não é a mesma coisa. Fico frustrado com isso e acabo desistindo de levar adiante. Para mim, inteligência é afrodisíaco. Valorizo garotas com iniciativa, determinadas e que tenham a mesma pegada que a minha: desejam crescer na vida e batalham por um espaço. Fisicamente falando, gosto de todos os tipos. Acho que cada garota tem uma beleza própria."

 

21 anos, 1,90 m, 84 kg, designer gráfico

 

 

 

 

 

COMO ENTENDER OS SOLTEIROS

 

Sem lançar mão dos chavões que inundam as publicações de autoajuda, o professor emérito de Psicologia da Universidade do Estado da Califórnia, Herb Goldberg, explica as dinâmicas de gênero que envolvem o comportamento amoroso no livro Tudo o que os Homens não Entendem: Mulheres, Relacionamento, Amor (Editora BestSeller, R$ 40). Leia a entrevista que o autor concedeu por e-mail.

 

Você fala que os homens estão vivendo um momento crítico, pois seu "isolamento pessoal" e a "dependência das mulheres" estão maiores do que nunca. Por quê?

Os homens são muito dependentes das mulheres para preencherem lacunas pessoais que eles não conseguem administrar sozinhos. Só que, hoje, muitas mulheres estão agindo como eles e estão assumindo funções que lhes caberiam. Isso os coloca com a necessidade desesperada de resgatarem seu próprio papel.

 

Mas por que os solteiros dizem que não querem abrir mão de sua liberdade?

Eles amam a liberdade, mas só quando já têm uma mulher. A realidade é que, quando estão solteiros, desejam muito encontrar uma mulher para preencher sua vida pessoal.

 

A busca pela "mulher perfeita" não é uma desculpa para ficarem sós?

É a arrogância do macho. Eles precisam de uma mulher perfeita para alimentarem seu ego, particularmente perante os outros homens que competem com eles. Querem uma mulher como troféu, de forma que reflita positivamente para a sua imagem.

 

É por esse motivo que o encanto dos primeiros encontros desaparece rapidamente?

A maioria das mulheres se acomoda e faz tudo para agradar ao homem, acreditando que precisam agir assim para serem amadas. Os homens são inicialmente atraídos pelo físico, mas por causa dessa postura vão se cansando delas, porque eles necessitam de altos índices de desafios e estímulos, e isso não acontece quando a mulher só quer dar prazer.

 

Como explicar certa aversão de muitos deles ao casamento?

A maioria dos homens não sente necessidade de se casar. Eles sabem que, quase sempre, o matrimônio acaba com o prazer do romance. E nos casamentos tradicionais, se a mulher decidir terminar a relação, o marido perde a casa, o acesso às crianças e eles são sempre acusados de não serem confiáveis, de serem workaholics e desprovidos de habilidades íntimas. Consequentemente, mais mulheres do que homens buscam o casamento, até porque muitas delas sofrem pressão da família, da sociedade e se preocupam com o "relógio biológico". Enquanto a solteirice masculina é vista com tranquilidade, é doloroso para a mulher ser rotulada de solteira.