Bronze seguro

- O Estado de S.Paulo

Uma nova e mais eficiente geração de protetores chega ao mercado para fazer frente aos riscos da radiação solar

Se o próximo verão, que oficialmente começa em 22 de dezembro, for tão abrasador quanto o último, os cuidados com o sol deverão ser redobrados. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a exposição solar de janeiro em São Paulo foi 35% maior do que no mesmo mês de 2010. Isso significa que os paulistanos ficaram mais tempo expostos aos efeitos maléficos causados pelos raios ultravioleta: foram 147,6 horas, ante as 109 horas anteriores.

 

O problema é que, de modo geral, os brasileiros não dão a devida atenção à proteção solar. Uma pesquisa publicada no ano passado pela revista da Sociedade Brasileira de Dermatologia mostra que o produto, fundamental nos dias de hoje, faz parte do cotidiano de apenas 38% dos entrevistados, em um total de 1.500 participantes de 11 cidades brasileiras das regiões Sudeste, Sul, Nordeste e Centro-Oeste.

 

"É um dado muito preocupante", observa a dermatologista Samanta Nunes, uma das autoras do estudo. "As pessoas permanecem vulneráveis ao câncer de pele, envelhecimento precoce, manchas, apesar de tanto se falar sobre o assunto." O descaso com proteção solar vem junto com uma série de confusões e equívocos. É muito comum ignorar a diferença, por exemplo, entre os raios UVB e UVA. Mais complicado ainda é entender as características dos produtos, que chegam ao mercado aos montes e com novas configurações.

 

A diferença entre os raios ultravioleta do tipo B (de "burn") e os do tipo A (de "age") refere-se aos danos. O UVB, de ação mais superficial na pele, queima e é o principal agente cancerígeno. Já o UVA, cujas ondas mais longas penetram profundamente na pele, é o responsável pelo bronzeamento, envelhecimento precoce, manchas e também está relacionado ao surgimento de tumores. O primeiro, por queimar e fazer bolhas, "avisa" o estrago. Mas o UVA, considerado traiçoeiro, não dá sinal algum.

 

A preocupação com os problemas detonados pela exposição ao UVA não é tão recente. O cosmetólogo Maurício Pupo, consultor especializado no desenvolvimento de cosméticos e nutricosméticos para o mercado brasileiro, conta que esse tipo de raio ultravioleta virou motivo de apreensão na Austrália no começo dos anos 1990.

 

"Apesar da disciplina dos australianos de aplicar protetor solar, a incidência de câncer de pele aumentava no país", diz Pupo. "Foi quando descobriram a ação danosa do UVA." A partir daí, os produtos foram obrigados a comprovar a proteção de pelo menos 90% da radiação ultravioleta do tipo A. Depois foi a vez da Europa se voltar à mesma questão.

 

PPD. Em 2006, a agência governamental europeia Colipa (The European Cosmetics Association) determinou que os fotoprotetores só poderiam ser comercializados na comunidade europeia se a proteção UVA correspondesse ao mínimo de um terço do UVB, cuja "medida" de proteção é o FPS ou fator de proteção solar. Para isso, usaram como referência o PPD ("persistent pigment darkening" ou, em tradução livre, "pigmentação duradoura escura").

 

No novo parâmetro, por exemplo, um protetor de FPS 60 deve ter um PPD de, no mínimo, 20. "Os produtos desenvolvidos na Europa, e vendidos no Brasil, têm essa especificação nos rótulos", diz a dermatologista Samanta. Por aqui, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) determina que é obrigatório ter apenas FPS na composição dos produtos. Mas a entidade já oficializou que irá seguir os padrões europeus na comercialização dos protetores no futuro.

 

 

"Como ainda não há obrigatoriedade de comprovar o PPD no Brasil, muitos colocam proteção UVA na embalagem, sem revelar quanto", diz Pupo. "E, sem uma indicação clara, a proteção pode ser insignificante."

 

Os EUA também terão novas regras. A partir de junho de 2012, conforme determinação da agência vigilância sanitária americana (FDA), os produtos vendidos lá também devem ser de "amplo espectro", ou seja, conter proteção UVB e UVA. Só que, em vez da sigla PPD, usam cruzinhas no rótulo.

 

Embora não seja possível mensurar com exatidão quanto o produto de origem norte-americana protege de UVA, teoricamente, quanto mais cruzinhas, maior será a resistência a esses raios ultravioletas. Também foram abolidas nos EUA expressões consideradas enganosas, como "bloqueador solar" ou "à prova de suor e água".

 

"É impossível bloquear 100% a ação dos raios ultravioleta", diz a dermatologista Samanta, que é membro titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Academia Americana de Dermatologia. E, mesmo que se diga que o produto resiste a suor ou água, deve-se repassar o protetor a cada duas horas.

 

Porção. Um erro comum é não usar a quantidade adequada. Em 2001, uma pesquisa da agência FDA revelou que a população só aplicava 30% do volume total considerado ideal. O correto seria passar sobre a pele 2 miligramas de protetor por centímetro quadrado para garantir proteção solar eficiente. Isso equivale a espalhar três camadas do produto pelo corpo, esperando, entre cada aplicação, de 5 a 10 minutos para secar. Mas a realidade revela que é quase impossível chegar ao ideal.

 

O cosmetólogo Pupo exemplifica a dificuldade: "Eu, que tenho 1,70 m de altura, precisaria gastar cerca de meio tubo do produto. Considerando que devemos aplicar o protetor a cada duas horas, teria de comprar vários, o que seria muito caro." Assim, um protetor de FPS 30, usado em menor quantidade, acaba correspondendo a 10.

 

Considerando esse (mau) hábito da população, dermatologistas costumam indicar FPS maior para conseguir o mínimo de proteção dos raios solares. "Como não passam a quantidade certa, nem repassam na frequência ideal, recomendo os potentes para uma exposição mais segura", avisa Samanta.

 

Decifre o rótulo

 

Moléculas: Na composição do protetor, há moléculas que capturam a radiação UVA e UVB e a liberam em forma de calor. Nesse processo, as moléculas fotoinstáveis se desestruturam e ficam inativas. Por isso o protetor deve ser reaplicado sistematicamente, pois perde seu efeito. Já as fotoestáveis capturam a energia luminosa, a liberam em forma de calor e se regeneram para pegar mais radiação. São os produtos com duração de 6, 8 e até 12 horas

 

Matizante: Também chamado de matificante, o termo vem do inglês "mate" (fosco). São fotoprotetores que contêm uma substância que reduz a oleosidade da pele, absorvendo a gordura cutânea. Alguns auxiliam também na redução do suor e umidade

 

Físicos e químicos: O fotoprotetor físico forma uma película de proteção sobre a pele para refletir a luz. É indicado para peles sensíveis. Já o químico precisa interagir com a pele para ter efeito e consegue proteção mais potente. Hoje, a maioria dos produtos usa os dois tipos

 

FPS 30: Proteção indicada pela Sociedade Brasileira de Dermatologia. Mas pessoas com peles claras ou com histórico de câncer na família devem recorrer ao FPS mais alto. No rosto, filtro 60 ou mais

 

Paba: Sigla para ácido para-aminobenzoico. Já foi um conservante muito usado, mas hoje está quase abolido por causar alergia na pele. Produtos Paba-free são menos alergênicos.