'Brinquedo industrializado não é necessário para a brincadeira acontecer', garante antropóloga

Rita Lisauskas - O Estado de S.Paulo

Especialista é autora do livro "A Arte de Brincar", que resgata brincadeiras tradicionais

Antigamente a maioria das crianças saia às ruas e brincava. Os pais quase não tinham medo, deixavam os filhos acompanhados apenas por sua imaginação e fantasia e pediam para que aparecessem de tempos em tempos para um lanchinho ou copo d´água. A escola também era palco para brincadeiras livres e divertidas. Mas, de uns tempos pra cá, as crianças têm ficado mais em casa já que "brincar lá fora" não parece ser mais tão seguro. Os pais e as mães de hoje trabalham mais do que os do passado e, por isso, muitas crianças passam o dia no colégio, que também mudou: em muitos deles a brincadeira começou a ser vista como algo supérfluo e facilmente substituído por mais aulas de inglês ou reforço em matemática. 

Foi por isso que a Antropóloga Adriana Friedmann escreveu "A Arte de Brincar", Editora Vozes, um livro que há algumas décadas poderia parecer inútil ou absurdo. Quem em sã consciência redigiria uma publicação ensinando crianças e professores a brincar de coisas que a gente já nascia sabendo, como amarelinha ou "balança caixão?"

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"Nos anos 80, como professora de crianças de 3 e 4 anos, chamou minha atenção que elas não brincassem e passassem tantas horas presas nas carteiras da escola fazendo exercícios de coordenação motora fina no papel", explica Friedmann. A partir dessa inquietação e da descoberta de um projeto de resgate de brincadeiras tradicionais desenvolvido em alguns países da Europa na década de 70, Adriana Friedmann decidiu pesquisar as brincadeiras tradicionais do século XX no Brasil e seu potencial educacional. O projeto foi sua tese de mestrado na Unicamp. 

O livro apresenta uma série de brincadeiras que as crianças ainda conhecem de uma forma ou de outra e algumas que correm o risco de caírem no esquecimento porque ninguém as apresentou aos nossos filhos e netos. As atividades estão divididas em "Jogos de perseguir, procurar e pegar", "Jogos de correr e pular", "Jogos de atirar", "Jogos de agilidade, destreza e força", "Brincadeiras de Roda", "Jogos de Faz de conta" e por aí vai. Folhear a "Arte de Brincar" é, para os adultos, uma viagem no tempo. Para as crianças, pode ser um mundo de novas descobertas. No livro encontramos  as regras e a forma de brincar de esconde-esconde, barra-manteiga, gato e rato, mãe da rua, corrida do saco e outras dezenas de brincadeiras. Dá vontade de ensinar uma por dia aos nossos filhos para que não deixem de vivenciar nenhuma experiência da infância.

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Estadão: Quais as brincadeiras do livro são as mais populares?

Adriana Friedmann: Hoje em dia todas as brincadeiras continuam a ser brincadas. Talvez as menos populares atualmente sejam aquelas que têm versinhos ou cantigas que foram resignificadas nos diversos grupos infantis. Amarelinha, pega-pega, pipa, bolinhas de gude, pular corda, brincadeiras de roda, todas essas brincadeiras continuam a existir em vários contextos infantis. 

Estadão: O que é melhor para a criança? Brincar sozinha, com os pais ou com outras crianças? Há diferença?

Adriana Friedmann: O melhor para a criança é brincar sozinha quando assim a quer, com outras crianças sempre que possível e com os pais, sobretudo na primeira infância. Depende também da faixa etária dela, suas necessidades e interesses. Os bebês têm de brincar com seus pais ou cuidadores e experimentar o mundo conforme o espaço, estímulos e capacidades. Assim que a criança está em contato com outras crianças da mesma idade ou idades diversas, é sempre muito importante que ela interaja e, para tal, a brincadeira é o melhor canal.

Estadão: As crianças de hoje precisam ser estimuladas a brincar?

Adriana Friedmann: O ser humano já nasce com esse impulso lúdico, mas sem dúvida o estímulo é importante quando feito de forma adequada à idade, interresse, necessidades e potenciais de cada criança. O importante é o equlíbrio e autonomia para brincar.

Estadão: Existam brincadeiras ruins ou que devam ser evitadas? Jogo eletrônico é bom ou ruim?

Adriana Friedmann: Nenhuma brincadeira é ruim. Este julgamento pode ser feito por alguém a partir dos seus próprios preconceitos ou valores. Se a criança brinca é porque ela precisa descobrir alguma coisa nela, nos outros ou no mundo ao se redor. Brincar com eletrônicos, dependendo da faixa etária, pode ser absolutamente inadequado e a maior parte desses brinquedos não permite muita intervenção da criança. 

Estadão: E quando a criança tem uma agenda tão cheia que não tem tempo de brincar? 

Adriana Friedmann: A criança precisa de tempo livre, de tempo para não fazer nada, tempo de ficar sozinha, tempo de escolher o que tem vontade. A pressão das agendas cheias é absolutamente prejudicial para um desenvolvimento saudável. É importante ouvir a criança e acompanhá-la no seu cotidiano para avaliar o impacto desta sobrecarga de obrigações. 

Estadão: Brincar fora de casa é melhor do que brincar em casa?

Adriana Friedmann: A criança precisa equilibrar suas atividades e também suas brincadeiras. Brincar dentro de casa, mais sossegada e também brincar fora, tendo contato com a natureza e outros estímulos. Ela precisa usar o corpo, a criatividade, ter contato com espaços e pessoas diversas e também ser apresentada a novos desafios. 

Estadão: É preciso ter brinquedos para brincar?

Adriana Friedmann: Os brinquedos são, muitas vezes, "pontes" para a brincadeira acontecer. Criança brinca com a imaginação, com objetos, materiais desestruturados, com a natureza. Brinquedo industrializado não é nem obrigatório nem necessário para a brincadeira acontecer.

Estadão: Qual o papel das brincadeiras infantis para a cultura de um povo?

Adriana Friedmann: As brincadeiras infantis revelam a diversidade cultural dos diversos grupos infantis, fundamentais por falarem de rituais, valores, costumes, músicas, personagens, entre outros. As brincadeiras infantis constituem patrimônio imaterial da humanidade. 

Estadão: Os professores das escolas, em geral, dão valor para o brincar livre ou acreditam que essa é uma atividade menor dentro da escola e que o brincar deva ter, necessariamente, um propósito pedagógico?

Adriana Friedmann: Infelizmente os professores, em sua grande maioria, não têm dado espaço e tempo para o brincar livre acontecer. O brincar livre tem entrado na escola muito mais em horários restritos e muito dirigidos. Apesar do movimento do brincar ser muito potente no Brasil, temos um longo caminho para que o brincar livre entre nas escolas com tempo e consciência suficientes para que as crianças se expressem e de desenvolvam de forma integral a partir das sua linguagens lúdicas: brincadeira, arte, música e movimento. 

Estadão: Qual o conselho que você daria aos pais que acreditam que seus filhos não sabem mais brincar?

Adriana Friedmann: Eu diria para que eles parem para observar e escutar seus filhos. Eles v~so descobrir um mundo de saberes inimagináveis nos seus filhos e repertórios desconhecidos. 

Adriana Friedmann é Doutora em Antropologia pela PUC-SP, Mestre em Educação pela UNICAMP e Pedagoga pela Faculdade de Educação da USP. É Criadora e coordenadora do Mapa da Infância Brasileira (link clicável www.mapadainfanciabrasileira.com.br) e do NEPSID, o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimetno. (link clicável www.nepsid.com.br).

Além de "A Arte de Brincar", Editora Vozes, também é autora de "Linguagem e culturas infantis" e o"O Desenvolvimento da criança através do brincar".