Brinquedo de gente grande

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

O uso indevido do celular pela criança atrapalha o rendimento em sala de aula e pode estimular o consumismo

O uso do celular por crianças tem gerado polêmicas. Uns acreditam que essa é uma forma prática de garantir a segurança dos filhos, facilitando o monitoramento diário dos rebentos pelos pais. Outros argumentam que o aparelho atrapalha o aprendizado em sala de aula, muito mais do que as costumeiras conversinhas com os colegas vizinhos e, além disso, estimula o consumismo entre os pequenos.

Se até adultos deixam de lado o bom senso, usando o celular sem nenhuma moderação, imagine a molecada. Pior: muitas crianças acabam exigindo dos pais aparelhos mais e mais sofisticados, com vários recursos, como forma de status entre os colegas. "Sem se darem conta, os pais acabam estimulando o consumismo", avisa Deborah Patah Roz, psicóloga do serviço de psiquiatria e psicologia do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas. "Embora o celular seja uma aquisição tecnológica quase inevitável, pelas facilidades que oferece, pode virar um objeto de competição entre crianças."

Sem orientação adequada em casa, os pequenos dificilmente respeitam as regras que limitam o uso do aparelho na escola. Razão pela qual professores frequentemente precisam interromper a aula para chamar a atenção dos alunos. Com os inúmeros recursos dos celulares, a molecada também deixa de prestar atenção à aula para brincar com algum joguinho e até escutar música com fone de ouvido.

O infortúnio é tamanho que Cássia Xavier de Oliveira Cruz, de 52 anos, professora da rede estadual de ensino, estipulou regras na sala de aula. "Chamamos os pais para uma conversa e decidimos, em comum acordo, que todos os professores reservariam os cinco minutos finais da aula para eles usarem o celular." Só assim conseguiram colocar ordem na escola.

CONTRA

A coordenadora do Núcleo de Pesquisas do Brincar, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), Maria Angela Barbato, é contra a ideia de dar celular para crianças com menos de 10 anos. "Se for por uma questão de segurança, o ideal é confiar nas pessoas responsáveis, o que não impediria os pais de telefonarem para a escola, por exemplo, para acompanhar seu filho", observa a educadora.

Acima dos 10 anos, o celular já é mais bem-vindo. A administradora de empresas Marisa Cabral, de 51 anos, estabeleceu regras rígidas entre seus filhos, os gêmeos Gabriela e Luis Pedro, de 11 anos. Estão terminantemente proibidos de ligar o celular na escola, a menos que seja num período breve e durante os intervalos.

"Gostamos de tecnologia, mas não deixo que fiquem bitolados nem no celular nem no computador de casa", fala Marisa. Quando deu aos filhos um celular como presente de aniversário de 8 anos, suas amigas a questionaram. Ela justificou-se, dizendo que fez questão de não lhes dar o último modelo.

O filho Luis Pedro já levou um pito do professor por ter esquecido de desligar o celular durante a aula. "Também o repreendi, porque é o tipo de atitude inadmissível", diz a administradora. "No entanto, não quero deixá-los sem o aparelho, porque acompanhá-los diariamente é questão de segurança."

Além da onipresença materna, outros motivos podem impulsionar o uso precoce de celular, até mesmo entre os pequenos que mal sabem discar os números. Matheus está com 4 anos, mas desde os 3 carrega o seu aparelho, que ganhou de presente do pai, a contragosto da mãe.

Conforme explica Fabiana Balieiro, após sua separação, tanto o ex-marido como os ex-sogros ficavam ligando insistentemente para o celular dela, querendo falar com o garotinho. "Estava sendo inconveniente e, mesmo não gostando da ideia, tive de aceitar que o pai do Matheus desse o celular para ele", resigna-se Fabiana.

Matheus gostou tanto da novidade que dormia com o celular ao seu lado, como se fosse um brinquedinho. Até que um dia o encanto passou e quem assumiu a responsabilidade pelo aparelho foi sua mãe. "Quando vai à escola, sempre tenho de lembrá-lo que o celular precisa ficar desligado, e que não é para ficar brincando com ele."