Brincar? Só de verdade

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

Brincar, para as crianças, não é ócio criativo nem muito menos ócio. O ato é algo tão obrigatório quanto comer, dormir e até mesmo estudar. Além disso, psicólogos e psicoterapeutas insistem que brincar não é apenas prazeroso, mas necessário para o desenvolvimento dos pequenos. Mas uma pesquisa feita pelo Instituto Unilever em 77 cidades de todas as regiões do País mostra que as crianças brasileiras estão sem tempo para se divertir. Atividades extra-curriculares, serviços domésticos, estudos e estresse estão entre os principais concorrentes das brincadeiras. Variam de acordo com a classe social, a idade e o sexo da criança. As de classe A e B, por exemplo, acumulam mais atividades organizadas, como balé, aulas de idiomas e computação. As de classes C e D auxiliam seus pais em tarefas domésticas em boa parte do tempo em que deveriam estar se divertindo.Até aí, nem os pesquisadores envolvidos no estudo tiveram muitas surpresas. Mas o que nem todo pai sabe é que a criança que brinca menos aprende menos. ?Muitos pais se esquecem de que a brincadeira é uma maneira fácil e prazerosa de aprender?, diz a psicóloga canadense Ann Marie Guilmette, professora-adjunta do Departamento de Estudos da Recreação e do Lazer da Universidade de Brock, no Canadá. Articulada, alegre e bem-humorada, a pesquisadora é o exemplo de que efeitos do brincar no futuro de uma criança.Mas, assim como não existe um futuro feliz sem uma boa brincadeira, é também difícil encontrar uma criança que queira brincar sem os pais . A pesquisa da Unilever confirma isso, mas, dos pequenos entrevistados (1.014 no total, representando um universo de 24.320.000 de crianças), apenas 37% conseguem chamar os pais para a roda.A culpa, pelo jeito, não é bem da mãe estressada, mas do relógio, apontado como um dos maiores vilões dos tempos modernos. Especialistas, no entanto, insistem: é preciso contar até dez antes de dizer não ao pimpolho. ?No final, os próprios pais se sentirão melhores, rejuvenescidos?, diz Ann Marie.A assistente de exportação Samira da Costa, 27 anos, mãe de Caio, de dois, se sente uma criança quando brinca co m o filho. ?Deve ser porque eu tive uma infância muito boa. Brinquei muito?, afirma. Por isso, o menino até entende quando a mãe diz que está cansada. Sabe que, no dia seguinte, ela certamente irá dançar ou jogar com ele.Algumas vezes, ver o filho em ação é uma estratégia que funciona. O analista de marketing Flávio Custódio, de 30 anos, não quis repetir com o filho os erros que acha que seu pai cometeu com ele. Por isso, ignora o cansaço trazido pelas nove horas de trabalho só para brincar com Lucas, de 6 anos. ?Não dá para ser pai só no Natal e no Dia dos Pais. Mesmo quando chego muito cansado, eu o observo brincar e converso com ele?, diz Flávio.Alguns especialistas já pensaram em sugerir uma ?hora do lazer? para a família, justamente com o objetivo de que eles possam se dedicar inteiramente aos filhos neste tempo.Junto com os pais, os pequenos se sentem mais acolhidos e seguros e, aos poucos, constroem a noção de que têm armas necessárias para lutar contra dores da vida adulta - termo que psicólogos chamaram de resiliência.Também é verdade que os tempos modernos e a falta de segurança nas grandes (e pequenas) cidades acabaram limitando os espaços onde as crianças podem brincar, mas vale a pena dar aos pequenos a oportunidade de se expressarem dentro de casa. E também tentar dar um aspecto lúdico a todos os momentos vividos com os filhos. ?Brinco com o Caio na hora do banho, quando dou o jantar?, diz ela. ?Não vejo forma melhor de demonstrar meu carinho por ele.?