Brasileiros batem recorde de vasectomias

Ricardo Westin - O Estado de S.Paulo

Em 10 anos, número de homens que se submeteram à esterilização na rede pública aumentou 57 vezes

No ano passado, os médicos da rede pública realizaram um número recorde de cirurgias de esterilização masculina. Perto de 22 mil homens se submeteram à vasectomia em 2006, segundo o Ministério da Saúde.O número vem aumentando exponencialmente desde que as esterilizações cirúrgicas foram regulamentadas pela Lei do Planejamento Familiar, no início de 1996. Naquele ano, foram realizadas, gratuitamente, 380 vasectomias na rede pública. O número hoje é 57 vezes maior.A vasectomia está entre os métodos que o casal pode escolher para controlar o número de filhos que deseja ter. É uma cirurgia simples e rápida em que se cortam os dois canais que levam os espermatozóides dos testículos à próstata.Uma vez feita a vasectomia, o casal não precisa mais se preocupar com a possibilidade de gravidez inesperada. Os demais métodos contraceptivos, ao contrário, precisam ser repetidos constantemente, como a camisinha, o dispositivo intra-uterino (DIU) e a pílula. Por ter o propósito de ser definitiva, a vasectomia tem restrições de idade (veja quadro ao lado).Até 1996, as vasectomias se restringiam praticamente a quatro Estados. "O debate não estava posto. Somos uma sociedade latina, com traços machistas muito fortes", explica Adson França, responsável no Ministério da Saúde pelo Departamento de Ações Estratégicas.Hoje, as cirurgias estão disponíveis em todas as 27 unidades da Federação. "O aumento das vasectomias vem do esforço da sociedade em vencer as barreiras tradicionais e dar ao homem a responsabilidade pelo planejamento reprodutivo, antes só nas mãos da mulher", diz França."A população, mesmo a de baixa renda, não tem mais aquela irresponsabilidade de ter um filho atrás do outro. Percebeu que a paternidade deve ser responsável", acrescenta Jorge Hallak, urologista do Hospital das Clínicas de São Paulo.MITOS DERRUBADOSTambém pesou nessa mudança um maior fluxo de informações sobre a esterilização masculina. Os homens que antes tinham medos e preconceitos aprenderam que a qualidade da vida sexual não se altera em nada após uma vasectomia - não provoca impotência nem câncer e o prazer e a ejaculação não mudam.Além disso, costuma-se associar o procedimento à esterilização compulsória, como ocorria na Alemanha nazista, e à prática ilegal em que políticos fornecem a cirurgia a pessoas pobres em troca de voto nas eleições.As operações são feitas, em grande parte, em hospitais e ambulatórios públicos. O governo federal envia o dinheiro, e Estados e municípios entram com a estrutura física e a equipe de saúde. Podem ser feitas na rede particular, mas não são cobertas pelos planos de saúde.A tendência é que o aumento se mantenha. Em junho, o Ministério da Saúde elevou o valor reembolsado a governos e prefeituras de R$ 28 para R$ 103 por vasectomia. Esse considerável reajuste, uma das ações da Política Nacional de Planejamento Familiar, deverá incentivar ainda mais a disseminação da cirurgia. É comum que hospitais do SUS evitem fazer procedimentos mal pagos pelo governo.LAQUEADURASão Paulo é, com folga, onde mais se realizam vasectomias no Brasil. No ano passado, foram feitas cerca de 11 mil cirurgias no Estado - metade do número nacional. Em 1996, como comparação, somente 176.A Secretaria da Saúde do Estado pretende ultrapassar a marca das 20 mil operações anuais em 2010. "O aumento na quantidade de vasectomias não foi uniforme em todo o Estado. Há regiões que são mais pobres em serviços do SUS", explica a médica Tânia Lago, responsável pelo Programa Saúde da Mulher, do governo de São Paulo.Hoje em dia, os paulistas têm mais de uma centena de hospitais e ambulatórios onde podem se submeter a uma vasectomia.A esterilização feminina é a laqueadura, em que as duas tubas do útero são fechadas para que os espermatozóides não cheguem ao óvulo. Essa operação também alcança números recordes no País a cada ano - foram 50 mil no ano passado.Na prática, a vasectomia leva vantagem por ser menos invasiva que a laqueadura e de muito mais rápida recuperação. A cirurgia masculina dura 30 minutos e exige apenas anestesia local. O homem pode voltar ao trabalho no dia seguinte.