Brasil quer compensação por estoque florestal

Cristina Amorim, Bali - O Estado de S.Paulo

País se apoiará nos 3 anos de redução no desmatamento na Amazônia, embora queimadas sejam sua principal contribuição para o aquecimento

Cerca de 130 ministros são esperados para os últimos dias da Conferência do Clima, quando os acordos costurados na primeira semana precisam ser resolvidos e assinados. Do Brasil, três confirmaram presença: Marina Silva (Meio Ambiente), Sérgio Rezende (Ciência e Tecnologia) e o chanceler Celso Amorim.Um fator que será debatido na conferência é a inclusão da manutenção das florestas na conta da mitigação do efeito estufa. O Brasil defende a criação de um fundo internacional, alimentado pelos países ricos, que ajude as nações tropicais com estoques florestais a manterem a vegetação em pé. A proposta não está atrelada a mecanismos de mercado, como deseja Papua Nova Guiné."Queremos que essa ação seja adicional a tudo aquilo que for feito nos países desenvolvidos. Nossa idéia não é venda de créditos em troca de redução do desmatamento, mas sim que isso seja uma contribuição nossa para esse movimento global de combate à mudança do clima", explica o embaixador Luiz Alberto Figueiredo.A principal contribuição do Brasil para o problema é o desmatamento e as queimadas, especialmente na Amazônia, que respondem a 75% do problema. O carbono que está estocado na forma de vegetação é liberado para a atmosfera.Nesse sentido, o País apresentará o resultado de três anos de redução na taxa de desmatamento na Amazônia. De acordo com cálculos do governo federal, a ação evitou a emissão de 400 milhões a 500 milhões de toneladas de carbono.Para Rubens Born, da ONG Vitae Civilis, o País poderia colocar em prática um projeto-piloto de sua proposta, com metas internas. "Se o governo acredita que o plano é factível, que coloque em teste. Assim seria possível corrigir eventuais equívocos e mostrar aos países desenvolvidos que é possível."Além da proposta sobre floresta, a delegação brasileira também apresentará os resultados do uso de fontes renováveis de energia para reduzir o consumo de combustíveis fósseis. O carro-chefe é o etanol da cana-de-açúcar. Em recente visita ao País, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, esteve em uma usina de álcool no interior de São Paulo.RESISTÊNCIASA União Européia defenderá uma redução global de emissões de gases-estufa de 50%, em relação aos índices de 1990, até 2050. ONGs pressionarão por um corte de 80%. As propostas sofrerão resistência de nações como os Estados Unidos, que hoje não seguem nem a meta em vigor e que esperam as eleições presidenciais, no fim do próximo ano, para decidir qual estratégia aplicar.Na outra ponta, os países em desenvolvimento, como o Brasil e a Índia, querem manter a posição estabelecida em Kyoto, há dez anos, de não aceitar metas de redução que predispõem cobrança internacional. "Temos várias idéias sobre como deve ser isso, e elas claramente passam por um esforço mais aprofundado dos países desenvolvidos, que assumam todos eles metas mais aprofundadas para o novo período de cumprimento do Protocolo de Kyoto, que começa em 2013", afirma Luiz Alberto Figueiredo. Se o impasse prevalecer, a COP-13 será um fracasso. "Até alguns dias atrás, achava que não daria em nada", diz o coordenador de campanha do Greenpeace, Marcelo Furtado. "Mas até agora só a Índia sinalizou claramente que não deseja que as negociações andem. E a movimentação da Austrália vai criar um fato político."A Austrália era, ao lado dos Estados Unidos, opositora ao Protocolo de Kyoto e a qualquer outra medida que restrinja suas emissões de gases do efeito estufa. Contudo, depois de amargar uma seca de três anos, a questão climática determinou a vitória do premiê Kevin Rudd. O país chegará a Bali com o acordo ratificado e um cálculo que mostra já uma queda em suas emissões.Além disso, a presença esperada de figuras políticas e da mídia, como o senador democrata John Kerry (que deve chefiar uma delegação do Congresso americano), Al Gore e o ator Leonardo Di Caprio (que produziu um documentário sobre a crise climática, A Última Hora), levarão a atenção do mundo para a reunião.